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A aprendizagem pelo jogo e a resolução de problemas (por Beto Costa)

fevereiro 26, 2015 3 comentários

Já escrevi por aqui sobre meu gosto por esportes. Em Latindo Para o Cachorro, eu disse:

Entre outras coisas, gosto principalmente porque o jogo cria microcosmos com regras e períodos específicos, onde as pessoas podem exercitar e demonstrar algumas de suas convicções e de seus desejos mais genuínos (mesmo aqueles mais secretos). Além disso, entendo que no jogo é possível que alguns abismos culturais e sociais sejam eliminados ou, pelo menos, diminuídos.

Por isso, há muito tempo, sonho em ter neste espaço algo relacionado ao esporte e suas implicações em todas as esferas da vida. Nesse sentido, minhas conversas com meu amigo Beto Costa, professor e estudioso dos esportes, me deram a certeza de que ele tinha muito a dizer sobre da prática esportiva e sua aplicação em processos de aprendizado – que é outra de minhas paixões.

Demorou, mas o Betão produziu um texto que achei muito legal, com ideias, conceitos e propostas na área. É um prazer reproduzi-lo aqui, até porque é a palavra de um especialista no assunto. Acredito que uma leitura atenta e interessada pode despertar em você questionamentos, ideias e, quem sabe, um debate – e é esse o meu objetivo.

Então, sem mais delongas…

A aprendizagem pelo jogo e a resolução de problemas

Roberto Rocha Costa

betoQuando fui convidado a escrever aqui, fiquei muito honrado e preocupado por não saber se, ou como, eu poderia contribuir. Mas, quando o Lau me desafiou, propôs um assunto pelo qual sou apaixonado. Discutir o jogo é algo sempre prazeroso. Algumas vezes, conversando com o ele, tive a oportunidade de falar sobre o que tenho estudado em relação à metodologia de ensino de esportes. E, entre outras coisas, algo em que devo tê-lo deixado curioso foi falar sobre “resolução de problemas” como aspecto do processo de aprendizagem. Hoje em dia, já existem correntes pedagógicas que defendem essa ideia em diversos ambientes (ensino básico, ensino superior, pós-graduação…). Se você quiser/puder pesquisar sobre PBL (Problem Based Learning), vai encontrar informações interessantes. Mas qual a relação do jogo com resolução de problemas?

A ideia de resolver problemas para aprender vem para superar o antigo modelo de que a aprendizagem está na repetição e reprodução de um determinado conteúdo. Nós aprendemos muito (pra não dizer tudo) relacionado à educação formal em um modelo que vou chamar de tradicional, em que o professor (ou alguma instituição, ou alguém superior a ele) determinava qual o conteúdo era importante para o aluno, fragmentava esse conteúdo em partes (para se ensinar as mais simples primeiro e depois ensinar as mais complicadas) e, principalmente, dizia, mostrava e fazia o aluno repetir milhares de vezes “tudo” que o aluno deveria saber. Além disso, esse modelo de ensino desconsidera que a aprendizagem aconteça em outros ambientes ou outras situações que não sejam a de um professor “passando” seu conhecimento para o(s) aluno(s). Por favor, perceba que eu critico esse modelo de ensino, mas não consigo dizer que esse modelo não ensina, porque ensina. Por outro lado, estou convicto de que esse modelo deve ser superado. Em qualquer esfera de ensino.

No ensino/treinamento de esportes, nesse modelo tradicional o professor determina quais movimentos o aluno precisa aprender para jogar, e o faz repetir esses movimentos de forma descontextualizada até que o movimento seja automatizado para, depois, aprender a usá-lo em situação de jogo. No ensino da escrita, faz o aluno repetir movimentos (escrever) que representam letras, mas a interpretação de texto só vem depois de saber reproduzir os desenhos (das letras) de forma adequada. Na matemática é ensinado a decorar números e resultados de contas (tabuada) para, somente muito depois, ensinar pra que serve (isso, quando ensina pra que serve).

Voltando à minha área de estudo/trabalho (talvez você consiga pensar em um exemplo relacionado à sua área), cena clássica em jogo de voleibol (principalmente em categorias iniciais, mas eventualmente também em equipes profissionais): A bola do saque cai direto no chão, entre 2 jogadores, que nem se mexeram para recepcionar a bola. Qual a primeira (e talvez única) reação deles? Olhar para o banco de reservas e perguntar para o técnico/professor quem deveria ter pego a bola. Somente depois dessa determinação, se acontecer novamente, talvez eles hajam como esperado. Mas o que essa cena indica? Indica que quem está no jogo, não sabe jogar. Porque quem sabe jogar, sabe que a bola não pode cair no chão! Não importa quem vai pegar a bola, ela não pode tocar o chão! Perceba que saber realizar o movimento da manchete não é determinante (pode dar alguma segurança, mas não promove a ação); o que provoca a ação é o conhecimento da necessidade e, consequentemente, de uma ação que resolva o problema. Cena semelhante, saque novamente entre 2 jogadores, mas os 2 correm em direção à bola, eles trombam e não conseguem dar continuidade ao jogo. O resultado final é o mesmo da cena anterior: ponto do adversário. Mas indica entendimento da necessidade do jogo, entendimento e busca de uma solução (que precisa ser melhorada). E a reação depois do erro? Geralmente os 2 resolvem entre si, reconhecendo que atrapalhou e que o outro tinha melhores condições, ou determinando critérios (a bola mais curta é sua, a mais longa é minha, etc.).

O que eu quero dizer é que repetir movimentos de forma descontextualizada e sem significado concreto não ensina atitudes. Repetir o movimento da manchete na parede não ensina recepção, ou defesa (muita gente que aprendeu os movimentos não entende que são situações (problemas) muito diferentes e que requerem soluções muito diferentes). Já a aprendizagem pelo jogo deve levar à compreensão dos objetivos e necessidades do jogo, identificação dos problemas, elaboração de soluções, aplicação das soluções propostas, avaliação do processo (se foi a solução adequada, ou não, se o erro foi a ideia ou a execução, etc.).

Qual a relação entre o jogo e a resolução de problemas? Bem, o jogo dá problemas para resolver, mas não dá as respostas. Essas são construídas a partir do conhecimento prévio e da interação entre os conhecimentos dos outros, além da experimentação, da criatividade e etc. Se inteligência é a capacidade de resolver problemas, e se eu quero que meu aluno/atleta seja inteligente, o que eu devo dar pra ele são problemas e não respostas, ações e comportamentos padronizados. Enfim, o jogo dá problemas, mas, mais do que isso, ele dá também a liberdade de resolver, de testar, de experimentar de se auto avaliar, enfim de aprender de forma concreta e significativa.

Pra finalizar, quando digo aprendizagem através do jogo, não é qualquer jogo,  ou deixar o aluno jogar o que quer,  nem de qualquer jeito (como ele quiser), mas um jogo organizado e previamente planejado com regras específicas, por exemplo,  para exagerar uma necessidade do jogo, provocando o aluno/atleta a identificar o problema, propor soluções e executá-las. Entre essas soluções estão as técnicas necessárias para resolver adequadamente o problema.

Imagino que algumas dúvidas surgiram, e quem quiser é só perguntar, que vamos discutindo até entendermos (eu inclusive) melhor. Abordei diversos temas num texto curto (aí tem assunto para pelo menos um semestre em um curso de formação de professores) e, se for necessário, podemos aprofundar, de acordo com as curiosidades/interesses de vocês (é só o Lau deixar…).

Grande abraço e até mais!

Beto.

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