Archive

Archive for the ‘projetos’ Category

Desafios e oportunidades para o futuro da TV paga no Brasil

Há pouco mais de quatro anos, cheguei ao mercado de TV paga.

Naqueles primeiros meses tudo era novidade. Mais do que isso: tudo era surpresa, porque, diferentemente do ambiente anárquico da Internet, em que havia construído minha carreira nos últimos anos, descobri que o mercado de televisão em geral (tanto a TV aberta, como a TV por assinatura) é terreno extremamente controlado por leis, regulamentos, normas e instruções. De certa forma, isso criou um ecossistema em que há muita competição, muito investimento em tecnologia, mas pouco espaço para (usando um termo que anda na moda) “movimentos de disrupção”.

Depois de muito trabalho e crescimento, há alguns meses, decidi encarar uma nova empreitada, à frente da diretoria de Operações de uma nova operadora de TV por assinatura. A iON TV é um projeto diferente, pois vai permitir que muitos operadores locais de telecomunicações (também chamados de provedores de internet) consigam oferecer seu próprio serviço de televisão por assinatura para seus clientes. O foco principal da iniciativa é levar o serviço ao interior do país, que ainda tem baixíssimos níveis de penetração.

O potencial desse empreendimento é que ele aproveita a força da marca local dos operadores regionais de telecomunicação junto às comunidades locais – oferecendo um atendimento diferenciado e personalizado em um serviço “famoso” por sua falta de qualidade e de empatia quando precisa dar qualquer ajuda a seus assinantes. O provedor local, que “toma café na padaria da esquina com seu assinante” conhece mais intimamente o seu consumidor e suas ansiedades.

Por esse motivo, o projeto tem tudo para ser um sucesso.

Mas, como diria um amigo, “se fosse fácil, era na Bahia”. Aliás, é bom dizer que “nem na Bahia” as coisas são fáceis. Há muitos desafios pela frente, até fazer com que o operador local e a iON TV cheguem bem na casa das pessoas e consigam conquistar sua fidelidade.

Os desafios para o parceiro que vai operar com a iON TV resumem-se a um único tópico: o aprendizado!

E esse é um assunto que, no dia-a-dia, fica complexo, porque, neste caso, o aprendizado é um processo que DEVE acontecer em uma via de mão dupla.

Ou seja, se, por um lado, o parceiro precisa aprender a trabalhar com TV por assinatura e suas armadilhas, a iON TV precisa aprender a conviver com a diversidade desses parceiros, que vêm de todos os cantos do país, com suas características e culturas locais, seus momentos econômicos e sociais. E o desafio aí é entender essa diversidade,  desenhar e desenvolver constantemente um produto que realmente tenha valor para cada um desses empreendedores que acreditaram no projeto.  

Mas, de qualquer maneira, para o parceiro operador, o processo de aprendizado pode dividir-se em três grupos principais:

1) Técnico – o menor deles, uma vez que, a partir de um aprendizado a respeito dos requisitos técnicos, dos padrões de ferramentas e equipamentos e das tarefas em si, torna-se algo que passa a fazer parte do dia-a-dia. Aliás, tem muito parceiro iON que já tem ou teve equipes de instaladores de TV por assinatura.

2) Comercial – aqui, os riscos e os esforços passam a ser maiores, porque o novo operador tem de aprender quais são os principais argumentos que podem convencer uma pessoa a assinar um serviço de TV paga e, ato contínuo, vai precisar aprender o que ele precisa fazer para reter / segurar esse assinante, fiel mesmo diante de promoções e de promessas de novos serviços substitutos ou concorrentes que VÃO aparecer, cedo ou tarde. Aliás, esse é um dos pontos mais evidentes nos quais tanto o operador precisa evoluir quanto a iON TV precisa se preparar para ajudar o operador.

3) Ciclo de Desenvolvimento Orgânico – que é uma palavra “rebuscada” para definir a capacidade de trazer toda a força da experiência que o operador já tem no mercado local e, sobretudo, na dinâmica da prestação de serviços de internet para estabelecer uma sinergia com o produto de TV paga, desenvolvendo novas maneiras de se fazer negócio, inovando em ofertas de produtos, em prestação de serviços, de relacionamento e, quem sabe, de mudanças de paradigmas nesse mercado de TV paga do Brasil. Porque quem estiver preparado para inovar e viver com o NOVO vai ser aquele que vai sobreviver no mercado, que está mudando e mudando muito, porque o consumidor está mudando e exigindo uma TV mais de acordo com suas “medidas” e seus “gostos”, algo diferente do modelo de ofertas padronizadas e, até certo ponto, estáticas da TV paga como conhecemos hoje.

É uma grande oportunidade para quem gosta de trabalhar e tem energia para pensar e ousar fazer diferente. Vou à luta, juntamente com mais um grupo de gente competente e que acredita comigo.

Em tempo: Neste ano, participei de um debate no congresso da ABTA 2014 (Associação Brasileira de Televisão por Assinatura). Após o Painel, em meio a muita conversa, com parceiros, fornecedores e gente do meio, fui convidado a falar sobre desafios e oportunidades do projeto. A resposta, publicada em vídeo (UOL Mais e Youtube) está disponível aqui também.

Categorias:fazendo, projetos

Sucesso = f(Expectativa, Qualidade, Ganhos)

janeiro 18, 2012 3 comentários

Há algum tempo, postei aqui o artigo Era uma vez, um berço usado. Ao final do texto, prometi que haveria um próximo capítulo – que, à época, já estava escrito. Por algum motivo, procrastinei tanto sua publicação, que acabei me esquecendo. Bom… antes tarde do que nunca. Ei-lo!

Ferramentas para garantir que Expectativa, Qualidade e Ganhos cooperem para o Sucesso.

O artigo (Era uma vez… Um berço usado), apresenta o sucesso como sendo o resultado de uma função de três variáveis: Expectativa, Qualidade e Ganhos.

Enfim… Mãos à obra.
O Contrato de Outsourcing de TI foi assinado. Muito critério na escolha do fornecedor – que traz consigo todos os selos de qualidade e certificações que o mercado exige.
No entanto, já se passaram dias, semanas, meses. E até agora, não entrou pela porta da empresa a Turma do Casseta e Planeta, abrindo a maleta de utilidades, com um produto milagroso para cada situação, dizendo “Seus Problemas Acabaram!”.
É cada vez mais forte a suspeita de que eles não vão aparecer…
Segundo Dr. Paul Roehrig, do “Forrester Research”, instituto independente de pesquisas de mercado e de tecnologia, aproximadamente 57% dos empresários que contratam Serviços de Outsourcing de TI estão razoavelmente satisfeitos, enquanto 22% estão bastante satisfeitos.
Isso quer dizer que que tem muita gente satisfeita. Em contrapartida, há um contingente de mais de 20% de insatisfeitos!

Será que toda essa gente insatisfeita é incapaz ou azarada? Pior… Será que eu sou um destes escolhidos? Nem uma coisa, nem outra.
Fazer com que Expectativa, Qualidade e Ganhos cooperem para o Sucesso é tarefa que exige disciplina, determinação, trabalho e método.
A seguir, algumas reflexões sobre cada uma destas variáveis.

A Expectativa
Saber o que esperar é fundamental. Grande parte das frustrações seriam evitadas se houvesse expectativas mais alinhadas com o que é, de fato, real. Isso em qualquer área da vida… E muito mais no mundo dos negócios!

O que mais aproxima sonhos de uma realidade palpável e mensurável é um Plano – claro e definido.

Em uma frase, o Plano é “o que permite ir em direção ao FUTURO, sem se esquecer do PASSADO, cuidando do PRESENTE”.

A Qualidade
O Plano é a expressão da Expectativa. Mas quantos sonhos e planos já não sucumbiram à realidade do dia-a-dia?

Desta forma, é imperativo que a execução seja realmente eficaz, e concretize o que se espera do Plano. No mundo dos negócios, não há palavra que dê mais legitimidade à execução do que Qualidade!

Qualidade não é algo subjetivo e passível de interpretação doutrinário-religiosa, como os menos avisados podem pensar (Qualidade – Bom Senso ou Padronização?).

Três ferramentas são importantes para garantir uma execução com Qualidade: Gestão de Projeto, o Modelo de Excelência Operacional e Auditoria Interna.

Gestão de Projeto
É aquilo que transforma o Plano em equipes de trabalho, grupos de atividades, “milestones”, datas, dependências, custos, responsáveis, patrocinadores e itens de entrega. Ou seja: traz o Plano do reino das idéias para o dia-a-dia da empresa.

Boas Práticas de Gestão de Projetos (como aquelas apresentadas no PMBOK, do Project Management Institute) são um excelente modelo para a empresa que está determinada a ter uma execução de Qualidade.

Modelo de Excelência Operacional
É a parte da execução que, paralelamente ao esforço de projeto, toma conta do “patinho feio” da gestão: o dia-a-dia, o cotidiano.
Sim. Precisa ter alguém olhando para o que acontece por ali.

Modelos de Excelência Operacional (Gestão de Processos, Qualidade e Melhoria Contínua) são capazes de revelar os pontos da operação que estão drenando recursos pelo ralo, muitas vezes carregando um bom punhado de dinheiro, e a carreira de muito gestor bem-intencionado. A notícia boa é que podem também apontar para pequenos ajustes que podem fazer uma grande diferença!

Auditoria Interna
Parar para fazer olhar-se no espelho e ver se as ações estão de acordo com o que se prometeu, agir exige disciplina, coragem e humildade.

Neste sentido, o modelo de Auditoria Interna aparece como uma excelente ferramenta para a empresa que está trabalhando sinceramente para obter sucesso. E não é preciso estar às portas de alguma auditoria para renovação do Certificado ISO para trazer a figura da Auditoria Interna para o palco. Auditoria Interna periódica deve ser um “estilo de vida”.

Os Ganhos
Ora… se não é a variável mais relevante do sucesso, é certamente a que sai mais na foto. Do lado desta variável, todo mundo quer aparecer!

A má notícia é que os Ganhos não acontecem sem esforço e, muito menos, por acaso. São fruto de uma Abordagem Factual disciplinada, de Revisão constante e de… Comunicação, Comunicação, Comunicação!

Abordagem Factual
Se você não é o CEO, o COO, o Presidente, o acionista, pense como um deles: Por quanto tempo você consegue sustentar que “melhorias” não precisam causar impacto concreto em Rentabilidade, ROI, EBITDA, ou qualquer que seja a sigla usada para medir sua gestão?

Revisão
Neste capítulo, há muito o que falar, mas vamos dar somente um exemplo:

Olhe para o Plano e para a Qualidade – sempre! Ao mesmo tempo, olhando para o Cliente, pergunte-se se ele está percebendo claramente a melhoria.

Humildade para implementar uma mentalidade constante de Revisão faz bem aos dentes.

Comunicação, Comunicação, Comunicação!
Parece óbvio, parece um clichê, parece somente uma conclusão motivacional para um artigo extenso. Pode ser, mas reflita assim mesmo:

  • Comunicar para compartilhar desafios e objetivos – e conquistar parceiros e aliados na empreitada.
  • Comunicar para mostrar consideração – com aqueles que compartilharam sonhos e dificuldades.
  • Comunicar para celebrar cada conquista, cada resultado positivo alcançado!

Conclusão
Bom… Com um mínimo de bom senso, alguém vai dizer: Mas, então, o Sucesso em Outsourcing de TI depende de toda essa engrenagem?

Como garantir que o fornecedor (ou os fornecedores) de Outsourcing de TI cumpra cabalmente os objetivos estabelecidos, e sua empresa tenha sucesso?

Neste momento, entra em cena a Gestão de Outsourcing. Assunto para o próximo artigo!

Categorias:gestão, projetos

A morte misteriosa do Planejamento

junho 5, 2010 3 comentários

Este conto é mais um capítulo da saga Projeto, um homem com uma missão.

Quando Planejamento, sua esposa Urgência e sua filha Pressa se mudaram para o Residencial Marketshare, parecia que seriam “felizes para sempre”. A nova família foi muito bem recebida por condôminos e funcionários.

Entretanto, o tempo tratou de ir trazendo a dura realidade do Marketshare para o Planejamento.

Dona Rotina, a síndica, logo caiu nas graças de Dona Urgência. Tornaram-se inseparáveis companheiras e confidentes. Passavam o dia inteiro batendo perna pelo condomínio. Quase nada lhes escapava aos olhos e à língua. O que não viam, inventavam. Sem saber exatamente por que, Planejamento não gostava daquela amizade da Rotina (uma falsa) com a Urgência .

O morador do apartamento 171 também incomodava. O senhor Walmir Mercado era figura imprevisível. Sofria de transtorno bipolar severo, alternando dias de simpatia, serenidade com momentos de extrema irritação e instabilidade. Por conta disso, vários foram os desentendimentos do Mercado com Planejamento – principalmente quando aquele entrava em delírios, alucinações e manias de perseguição, bradando ameaças escatológicas e apocalípticas pelos corredores.

Morava na cobertura, o Senhor Resultado. Cara esquisito. Dizia-se comerciante, mas era mesmo um agiota. Envolvia as pessoas com conversa mole, convencendo-os a associarem-se a ele em algum novo negócio. Levava seus sócios a empenharem suas parcas economias na nova empresa. Quando o dinheiro acabava (e isso sempre acontecia), emprestava-lhes a taxas de juros pra lá de abusivas. Logo, o incauto empreendedor estava irremediavelmente preso e dependente do Senhor Resultado. Planejamento também acabou vítima do conto do Resultado. Investiu tudo em um supostamente promissor e milionário negócio de enfeites de feltro para árvores de natal.

Em pouco tempo, não teve outra saída se não hipotecar seus imóveis para pagar parte das dívidas. Planejamento estava falido e desacreditado.

As desavenças com o morador do apartamento 171 também eram cada vez mais freqüentes. Certo dia, após um desentendimento sobre vaga no estacionamento, muitos ouviram o Mercado aos berros no hall de entrada: “O Senhor vai ver, seu Planejamento. Ainda acabo com a sua vida.”

Como se não bastasse, a Rotina (que não era de confiança mesmo), não se sabe exatamente por que, passou a chantagear a Urgência por conta do segredo do nascimento da Pressa. Como Urgência não cedeu à pressão, a ex-amiga escreveu carta anônima e enviou para o Planejamento. Ao ler aquela história escabrosa, Planejamento passou a pressionar a sua esposa para que contasse a verdade. Ela negava veementemente, mas ele estava determinado a ir até o fim.

Assim, constantemente assediado por truculentos cobradores do Resultado, ameaçado violentamente pelo Mercado, em pé de guerra com a Urgência, Planejamento passou a viver dias de insegurança e medo.

Certo dia, o professor de dominó do condomínio, ao abrir sua academia, deparou-se com o corpo já sem vida do Planejamento, debruçado sobre a mesa principal.

Estava estabelecido o mistério. A primeira versão dava conta de que o Planejamento tinha sido vítima de mal súbito. Sabedor de que havia muita gente interessada na sua morte, o delegado local insistiu em encomendar uma autópsia – contra a vontade da viúva. No procedimento, legistas descobriram altas doses de Coca-cola Diet e Mentos em todo o sistema digestório do finado.

Não havia dúvidas: Planejamento foi assassinado. E a polícia já tinha uma legião de suspeitos.

Afinal… quem você acha que acabou com o Planejamento? As armadilhas da Rotina, a instabilidade do Mercado, as pressões do Resultado, ou a imprevisível Urgência?

Elementos fundamentais para sucesso em projetos

março 30, 2010 1 comentário

Neste ano, faço 27 anos de carreira. De 1983 até hoje, fui de Assistente de Produção de Seguros até Diretor de Operações (posição que ocupo hoje). Em 1988, eu comecei a trabalhar na área de Tecnologia da Informação, onde passei maior parte da minha vida. Na verdade, fiz de tudo um pouco… mas algumas coisas em particular, fiz bastante.

Uma coisa com a qual passei a conviver diariamente quando comecei a trabalhar com desenvolvimento de software foi com o conceito de Projetos. Na teoria, projeto é “É um esforço temporário empreendido para criar um produto, serviço ou resultado exclusivo”. Na prática, muitas vezes é aquilo que começa com uma celebração e termina com uma demissão. Meu amigo Samuel diz que boa parte dos projetos tem cinco fases: 1) celebração, 2) início dos trabalhos, 3) problemas de montão, 4) caça aos culpados e respectiva punição, 5) promoção dos não envolvidos. Infelizmente, essa é uma realidade ainda em muitas organizações e iniciativas.

Devo dizer, porém, que tive a felicidade de participar e gerenciar alguns projetos que não seguiram as cinco fases clássicas de Samuel. Nos últimos anos, houve uma proliferação de ferramentas e metodologias de Gestão de Projetos, que facilitaram muito a vida daqueles que têm a responsabilidade por garantir o êxito da empreitada.

Agora, em todas as histórias de sucesso de projeto nas quais participei, bem como em todas as Metodologias de Gestão de Projetos vencedoras, há dois elementos fundamentais, sem os quais a chance de as coisas darem certo  diminuem bastante:

  • O cuidado com as pessoas: a atenção para as expectativas individuais e dos grupos, os fatores de motivação, o sentido de responsabilidade e de mutualidade;
  • O cuidado com a comunicação: a obsessão por manter todo mundo informado do que acontece, dos desafios e também dos pequenos marcos alcançados.

Na vida, vi muita gente com certificação em instituto de formação falhar na condução de um projeto porque não consegue fazer a gestão das pessoas nem tampouco estabelecer e manter canais de comunicação eficientes e eficazes. Ao mesmo tempo, vi muita gente sem um certificado formal, mas que é mestre em manter a equipe motivada, integrada e sempre informada. Esses últimos, são excelentes Gerentes de Projeto.

Se você é ou pretende ser um Gerente de Projeto de sucesso, lembre-se sempre desses dois elementos fundamentais: Gente e Comunicação. Sua vida vai ser bem melhor, pode crer!

Categorias:fazendo, projetos

Projeto, uma história

novembro 11, 2009 6 comentários

Esse é o conto que originou a saga de Projeto – um homem com uma missão

Era uma vez, em um reino distante, uma família.

Projeto, moço de origem humilde, casou-se ainda novo, com Rentabilidade, moça de posses, de família tradicional e influente naquelas paragens. Eram, como se diz, feitos um para o outro – o balaio e a tampa. Com muita dedicação, construíram sua vidinha e tiveram dois filhos gêmeos: o Prazo e a Qualidade.

O Prazo, desde cedo, mostrou-se um rapaz determinado, cheio de iniciativa, inteligente. Às vezes, era tido como pessoa insensível e sem coração, mas, no fundo era bom rapaz. Até nutria uma paixão pela vizinha, a Credibilidade.
A Qualidade era uma moça muito doce, sensível, detalhista e sincera – além de muito bonita. Todo mundo se admirava de sua beleza e não poupava elogios àquela menina que parecia ser feita de porcelana, de tão delicada. Às vezes, demonstrava ser muito mimada. Tinha acessos de ciúmes, principalmente quando percebia que alguém em casa dava mais atenção ao Prazo do que a ela. Não obstante, Prazo e Qualidade eram inseparáveis.

Certa vez, quando a vida corria calmamente, receberam uma visita inesperada da prima Pressa. A Pressa era filha da tia Urgência, viúva do irmão mais velho do Projeto – o Planejamento. Era carrancuda e um tanto amargurada. Dizia-se uma esquecida pela vida.

A Pressa trazia consigo uma carta da mãe, que relatava as dificuldades que as duas estavam passando desde o falecimento do Planejamento. Sentiam muita falta dele. Para complicar, descobriram, no inventário do finado, que estavam com todos os bens hipotecados junto a um influente comerciante daquela região, que era o Senhor Resultado. O homem era implacável e queria, a todo custo, o que lhe era devido – com toda a razão.

Senhor Projeto reuniu a família e conclamou a todos que recebessem a Pressa com todo o carinho e que a tratassem com todo o respeito e consideração. A Pressa começou, então, a fazer parte da vida de todos. Logo começaram a aparecer os primeiros problemas.

Nunca foram ricos. O dinheiro na casa do Projeto não era infinito. Portanto, acomodar a Pressa em casa, significava dividir o suado pão em mais um pedaço. Todos tiveram de abrir mão de um bocado. Prazo não se conformava em ter de ficar fazendo concessões em função da Pressa. De tanto reclamar, conseguia seu bocado de comida por inteiro, que acabava sendo tirado da porção da Qualidade. A Pressa, enfim, era a inimiga da refeição.

Qualidade, muito doce, nada reclamava, mas remoia dentro de si uma revolta. Sempre fora assim, e o resultado, ao final de algum tempo, era sempre uma explosão de fúria e incompreensão. A situação ficava cada dia mais grave. Já estavam todos arrependidos, mas Projeto já havia assumido compromisso com a Urgência. Não dava mais para voltar atrás.

Pouco a pouco, os recursos do Projeto foram sendo consumidos, e os relacionamentos degradavam-se a cada dia. Prazo, muito objetivo, chamou o pai em um canto e expôs a situação. Disse que não se conformava com aquilo, que sua irmã Qualidade estava sofrendo e que aquilo precisava ter um fim.

Argumentou que, com tanta atenção à prima, ele antes tão cumpridor dos seus deveres, tornou-se uma pessoa com dificuldade de assumir compromissos. Neste sentido, até o namorico com a Credibilidade estava abalado. Chegou a ser rude quando disse que não admitia que a falta do tio Planejamento pudesse afeta-los daquela maneira. Assentiu que imprevistos e problemas acontecem, mas Prazo e Qualidade não deveriam ser penalizados por isso. Papai entendeu, mas considerou que a Pressa era o que mais importava naquele momento.

Então, chegou o dia em que receberam a notícia da tia Urgência: ela tinha conseguido saldar suas dívidas com o Senhor Resultado. No mesmo dia, antes mesmo que se dessem conta, a Pressa juntou suas coisinhas e partiu sem um obrigado sequer. Uma ingrata.

Passaram a carregar consigo as marcas daqueles tempos difíceis. Prazo perdeu a Credibilidade, que arranjou moço rico, casou-se e mudou de endereço – tornou-se rapaz amargo e de difícil relacionamento, de quem as pessoas têm medo. Qualidade, em acesso de fúria, culpou aos pais por aquela situação, saiu de casa e foi encontrada dias depois em um bar com os amigos, completamente bêbada. Tornou-se pessoa retraída, tímida, implicante e uma companhia desagradável.

Na casa do Projeto, o amor prevaleceu, mas as coisas nunca mais foram as mesmas.

 

Nota: quando apresentei esse pequeno conto em uma aula de Gerência de Projetos, uma das alunas comentou que havia sentido falta de um personagem – o Importante. Foi, então, que resolvi, escrever os outros contos.

O Sonho, a Determinação e a Visão

novembro 7, 2009 1 comentário

Este conto é mais um capítulo da saga Projeto, um homem com uma missão.

Sábado, cinco e meia da manhã, correria em casa. As ferragens e a lona da barraca já estão na caminhonete, junto com algumas caixas de verduras e de frutas. Antes de chegar ao local da feira livre, dariam uma passada no centro de abastecimento, para pegar mais algumas coisas, pois o dia prometia ser de muito movimento e procura. Para aquele casal, depois da sexta-feira, sempre vinha o sábado-feira.

Sonho gostava daquela vida. Para ele, oferecer frutas e verduras frescas, saudáveis e saborosas para as pessoas era mais do que um negócio – era um ministério. Desde cedo, não mediu forças para ter sua barraquinha. Mas, para falar a verdade, sua vida só entrou nos eixos mesmo quando conheceu a Determinação. Pelo sonho, qualquer um levava qualquer coisa sem pagar. Dizia: “Encheu a sacola e não tem dinheiro? Não tem problema. Depois a gente vê como faz!”.

Foi a Determinação que colocou os pés do Sonho no chão, assumindo a gestão das finanças da família logo que se casaram. Acabou com a “farra do fiado da barraca do Sonho”, famosa entre feirantes e fregueses. Além disso, observadora e organizada, registrava tudo no papel. Em pouco tempo, equilibrou as compras, evitando tanto o desperdício quanto a falta de mercadoria . Diferentes, completavam um ao outro, como café e leite. Eram felizes.

Se fosse somente pelo Sonho, a prole seria imensa. Sete filhos, no mínimo: “um para cada dia da semana”, dizia ele. Mas com a Determinação no comando, somente após alguns anos de casados, com a situação financeira mais estável, tiveram a primeira filha. Deram-lhe o nome de Visão.

Por onde passava, a Visão mostrava logo sua personalidade – que combinava o melhor dos seus pais. De um lado, a doçura alegre herdada do pai; de outro, a astúcia de quem não se deixa enganar pelos próprios sentimentos. Gostava de ir à feira, trabalhar e conversar com a freguesia. Cresceu cada vez mais simpática e querida por todos. Tornou-se , assim,  jovem vistosa e marcante.

E foi em uma manhã de sol, na hora da xepa, que conheceu Importante. O rapaz foi até a barraca dos ovos, buscar uma porção para a Irmã Cozinheira-Chefe do convento. Dever cumprido, aproveitou para dar uma volta pela feira. Aquele lugar cheio de fartura, aromas e cores o encantava. Passeava absorto quando, pela primeira vez, seus olhos encontraram o olhos da moça da barraca do “Seo” Sonho. Paixão instantânea.

Desde aquele dia, suas vidas mudaram: Visão e Importante tornaram-se companheiros inseparáveis por toda a vida. Viveram muitas aventuras desde então – mas isso é assunto para outro episódio.

Até lá!

Importante – o filho perdido do Planejamento

outubro 28, 2009 13 comentários

É preciso tomar cuidado com os caminhos do coração. Os encantos de um rabo-de-saia (ou um rabo-de-calça) são traiçoeiros e manhosos. Quando alguém sucumbe ao feitiço da paixão, tudo à sua volta parece ser secundário e sem importância.

Foi assim com Planejamento.

Era um moço cheio de vida e sonhos para o futuro. Sempre soube o que quis. Quando frequentou os bancos escolares, destacava-se por liderança nata, sobriedade e capacidade de manter-se firme mesmo nos momentos de maior perigo ou incerteza. Porém, certo dia, em uma festinha dançante, regada a ponche de frutas, batida de coco e cuba libre, conheceu fogosa menina. Donzela não era, mas impressionava pelo jeito de andar, de falar, de desdenhar dos meninos – sempre desejosos de ouvir suas histórias e conhecer seus mistérios de alcova. Seu nome era Urgência.

Enebriado pelo álcool, pela música à meia luz, embalado por sussuros marotos ao pé do ouvido, Planejamento apaixonou-se irremediavelmente pela Urgência.

De nada adiantaram os conselhos dos pais, dos amigos, do pároco e até do vereador – todos conhecedores da fama (merecida) daquela desavergonhada. Era caso de paixão cega, surda e muda. Em questão de meses, consumou-se o casamento de Planejamento com Urgência. Tão rapidamente quanto o casamento deu-se também a gravidez de Urgência.

A natureza já havia escolhido: Urgência carregava no ventre um menino. Por sua vez, Urgência também já havia feito sua escolha: estava determinada a ter filha mulher, a quem pudesse dominar e ensinar seus segredos mais sórdidos na arte de conquistar qualquer coisa e qualquer um a qualquer preço. Daquela forma, quando soube, após o parto, que seu rebento era um menino, arquitetou plano maligno: durante madrugada sombria, tomou o filho que tinha dado à luz e, sorrateiramente, trocou-o pela filha menina do quarto anexo. Para que não houvesse risco de a mãe do menino perceber a mazela, envenenou-a com uma dose mortal de leite com manga. Pela manhã, como se nada tivesse acontecido, a assassina dissimulada deixou a maternidade carregando sua desejada filha. Deu-lhe o nome de Pressa.

Planejamento, resignado, acolheu a Pressa com amor, carinho e consideração de pai, sem saber que aquele era apenas o primeiro ato do final trágico de sua vida, que estava por vir.

Quanto ao menino, órfão desde os primeiros momentos de vida, foi parar em convento de freiras carmelitas. Tão contente ficaram com a chegada daquele menino especial, que deram-lhe o nome de Importante. Estava destinado a ter infância dura e pobre. Entretanto, sem saber, carregava dentro de si o sangue forte e nobre do pai. E essa força jamais lhe foi tirada, nem por ninguém nem por situação alguma – sempre será Importante, o filho primogênito do Planejamento.

A história continuará em capítulos futuros, a serem publicados oportunamente neste blog. Aguarde!

Notas:
1) Este conto é apenas um capítulo da  saga de Projeto, um homem com uma missão.
2) A idéia e o roteiro desse capítulo ocorreram-me a partir do comentário de uma aluna durante uma aula sobre Gestão de Projetos, que ministrei nesta semana.
3) O título do capítulo é de autoria do meu amigo Marcos “Bob” Benassi, com quem compartilhei a idéia de escrevê-lo.