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A força que dói


Dentre várias coisas escritas por C.S. Lewis que me deram a sensação de que ele “tirou as palavras da minha boca” (ou, contextualizando, “tirou os caracteres do meu teclado”), está o famoso trecho de “Os Quatro Amores”.

Amar é sempre ser vulnerável. Ame qualquer coisa e certamente seu coração vai doer e talvez se partir. Se quiser ter a certeza de mantê-lo intacto, você não deve entregá-lo a ninguém, nem mesmo a um animal. Envolva o cuidadosamente em seus hobbies e pequenos luxos, evite qualquer envolvimento, guarde-o na segurança do esquife de seu egoísmo. Mas nesse esquife – seguro, sem movimento, sem ar – ele vai mudar. Ele não vai se partir – vai tornar se indestrutível, impenetrável, irredimível. A alternativa a uma tragédia ou pelo menos ao risco de uma tragédia é a condenação. O único lugar além do céu onde se pode estar perfeitamente a salvo de todos os riscos e perturbações do amor é o inferno.

(C.S. Lewis, Os Quatro Amores)

Nos tempos atuais, a afirmação de Lewis é uma afronta. Tempos em que não há espaço para que eu receba ou aceite a história do outro como uma perspectiva a ser considerada, ampliando meu entendimento do que suponho ser a verdade – verdade essa que não estou disposto a questioná-la, porque eu e meu mundo nos bastamos.

Em oposição ao individualismo, chega o amor. Mais do que isso: o amor é a alternativa viável ao inferno do egocentrismo. Mas é importante que se saiba que, por sua essência transformadora, o amor pode doer. Dói em mim, dói em você, doeu em Jesus.

Não obstante, vale a pena porque, na verdade, é o que de fato cabe no meu coração e no meu anseio pela eternidade. É o que me permite provar e vislumbrar um pouco do que há no coração do meu criador. Estabelece laços, modifica perspectivas, viabiliza vida.

… Pausa…

Originalmente (há mais ou menos um mês e meio), eu tinha escrito essa introdução para os versos que você pode ler logo abaixo. Por alguma razão que não me ficou clara, não publiquei. Achei que devia deixar o texto se assentar um pouco antes de torna-lo público.

Enquanto o texto estava lá, em seu estado de amadurecimento, fui surpreendido (há quatro semanas) com um “mau jeito” nas costas que, desde então, tem me causado dores fortes e constantes no quadril e na perna. Fui ao médico e iniciei o tratamento hoje, mas o alívio ainda não chegou. Ouvi do médico que essa dor que estou sentindo é incapacitante. Realmente, não encontro melhor definição do que essa.

Esta dor é incapacitante porque ela está presente de tal forma que ocupa meu pensamento em todo o tempo. Desde o primeiro dia dessa crise, tudo o que faço, faço tendo a dor como referência: Se fizer isso, vai doer? Se fizer aquilo, vai aliviar? Será que a dor me permitirá fazer tal coisa, assumir tal compromisso?

Ontem, me dei conta que essa era a bênção que me faltava para amadurecer o texto. Quando escrevi que amor “é força que dói”, o fiz como “caracterização poética” (se é que isso existe) do texto de C.S. Lewis. Uma afirmação correta, mas sem a substância da prática. Ontem, percebi que o amor como “força que dói” é aquilo que me incapacita de fazer qualquer coisa sem pensar nele, aquilo que me obriga a tê-lo em perspectiva para qualquer coisa que eu vá fazer na minha vida.

Enfim, se você e eu tivermos como árbitro de nossas atitudes e comportamentos essa força que dói, creio que estaremos mais próximos daquilo que o Mestre Jesus de Nazaré nos ensina e nos insta a sermos.

Agora, creio que entendo melhor o que significa viver esse amor dolorido.

O amor é força que dói
Mas mesmo assim
É o que há de mais doce
E mais justo cabe dentro de nós

O amor não é vão sentimento
Mas presente se pode sentir
O amor não é flor no jardim
Mas presente perfuma o ar

É silêncio que grita alto e preciso
É palavra que cala o mais alto refrão
Tempestade que nutre e que rega calmaria e frescor

 Forja o fraco, molda o forte
E penetra, e redime, e nos junta
Ao Senhor, Nosso Deus, artesão e expressão… do amor

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Categorias:lendo, pensando
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