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Estabilidade ou sentido?


 

Por Daniel Guanaes (*)

Foi na década de 1930 que o mundo ouviu pela primeira vez a definição do ‘sonho americano’. O historiador James Truslow Adams disse que a vida deveria ser melhor e mais próspera, com liberdade e oportunidades para que todos os residentes nos EUA atingissem seus objetivos com seu esforço e determinação.

Em se tratando de propaganda, a maior materialização deste sonho se dava com a conquista do emprego
duradouro, da casa própria e do carro na garagem. Eram indicadores de estabilidade – realidade em busca da qual estavam não apenas os americanos, mas os imigrantes que não paravam de chegar em seu país, em busca de condições melhores de vida.

Para muitos, a possibilidade de viver sem as incertezas do desemprego, as dívidas dos aluguéis e a dependência do transporte público e coletivo era fonte de grande satisfação. Como resultado, não foram poucas as pessoas que fizeram da estabilidade o seu grande projeto de vida. Não apenas nos Estados Unidos, mas também em muitas outras nações, onde pessoas fizeram do modelo do ‘sonho americano’ um ideal para sua jornada.

No Brasil, para algumas gerações que viveram no século XX, as únicas possibilidades profissionais eram o exercício da medicina, engenharia e advocacia, ou o ingresso em uma carreira como servidor público. Não que não houvesse outras opções; mas que elas não eram consideradas como promissoras. Não garantiam estabilidade.

Embalados por este ideal, muitos se aventuraram por jornadas com as quais não sonhavam. Engavetaram sonhos, ouvindo que valeria a pena. A satisfação viria com a casa própria e o carro do ano na garagem – frutos que dificilmente viriam sem um emprego duradouro.

Um efeito colateral desta mentalidade foi a introjeção da ideia de que as realizações na vida se mediam pela quantidade de conquistas materiais que um sujeito era capaz de colecionar. Carros e casas, no plural mesmo, representavam alto grau de satisfação, indicando sucesso profissional e ascendência social. A consumação do Captura de tela 2014-07-30 22.53.25sonho de todo um povo.

Não demorou para que, dentre os que conseguiam obter tais posses, alguns percebessem que a tão almejada estabilidade não tinha relação direta com grau de satisfação. Muita gente com bela carreira, algumas casas e carros, e muito dinheiro se percebia frustrada; não realizada. Alguns descobriram que não era estabilidade o que buscavam. Mas se não estabilidade, o que buscar?

O final do século XX foi palco do começo de uma mudança nos critérios de satisfação pessoal e profissional. Talvez, na verdade, tenha sido mais uma questão de ampliação do que de mudança. A estabilidade, antes fator preponderante nas escolhas quanto ao tipo de carreira a se trilhar e vida a se construir, perdeu força. Encontrou, como elemento equivalente, o fator sentido. Se a primeira dava às pessoas a sensação de segurança, a segunda dava sensação de satisfação.

Parece que o leque de carreiras possíveis cresceu abruptamente. Além da valorização de atividades que antes não estavam em voga, natural com a oscilação e o surgimento de novas demandas do mercado, as pessoas começaram a considerar o que as fazia feliz. Alguém se lembrou de Confúcio: “escolha um trabalho que você ame e não terá que trabalhar um único dia de sua vida”.

É verdade que a máxima do filósofo chinês é uma visão romanceada da realidade. Lidar com o que se ama também dá trabalho. Mas qualquer esforço é atenuado quando se descobre que o que se faz agrega sentido à vida.

Hoje, pais ainda não entendem algumas escolhas de seus filhos – produto de uma geração que pensa diferente da sua. Assustam-se com a facilidade com que deixam passar oportunidades que, em sua análise, seriam a chance de acertar na vida.

Ainda há quem busque estabilidade. Não são poucos. E não há mal nenhum nisso – sendo diversos os benefícios que dela advém. Mas é bom que se perceba que nem todos se satisfazem com a previsibilidade de uma carreira. Pode parecer surreal para alguns, mas tem gente que não sonha com a casa própria. Gente para quem carro não é prioridade. Homens e mulheres que escolheram outro estilo de vida.

Somos gente de todo tipo. Mas, no fundo, precisamos da mesma coisa: sentido.

Difícil explicar.

É como se pedaços do nosso ser estivessem espalhados pelas estradas da vida. À medida que os encontramos – nas atividades que desempenhamos, nos sonhos que materializamos, nas conquistas que fazemos, nos bens que adquirimos, nos abraços que damos, nas viagens que planejamos, nos amigos que firmamos, e em inúmeras outras experiências que fazem bem à mente e ao coração – nos aproximamos da sensação de plenitude que tanto almejamos.

Faz sentido?

 

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