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Será que existe um abismo?


por Daniel Guanaes (*)

Houve uma época em não pegava bem tratar de assuntos de fé em ambiente de trabalho. Não apenas por causa do ditado que ensina que religião, tal qual futebol, não se discute. Também, e principalmente, por que “fé e trabalho não se misturam. Pertencem a mundos distintos.” – diziam.

Será?

Sei que este é um paradigma iluminista. A tentativa de romper com a teologia como ponto de partida para a construção de todos os saberes – prática medieval – relegou toda e qualquer questão relacionada à transcendência a um status de “questão menor”.

Deus, que era a explicação mor para a existência de todas as coisas, passou a ser o argumento dos superficiais. Qualquer reflexão um pouco mais profunda, pensavam, tiraria o elemento transcendente de cena, deixando sobre a mesa apenas a sofisticação daquilo que fosse experimentável.

Não demorou para que a espiritualidade, como uma prática social, praticamente saísse de cena. Ao menos no ocidente, num contexto majoritariamente cristão, quem quisesse praticar a fé que fosse a uma igreja.

Desde a segunda metade do século XX o ocidente ouve sobre a pós-modernidade. É mais do que a inauguração de um novo período. É o anúncio de que os homens neste mundo estão construindo novos paradigmas. Ou recuperando antigos.

Um sábio já disse que o mundo dá voltas. Que o que já se viu ainda se verá, não havendo nada novo debaixo do sol. A história sempre foi assim: embalados pelo ritmo do seu tempo, homens constroem, desconstroem e reconstroem pilares que os auxiliam a enxergar a vida.

Parece que hoje há pilares novos – ao menos se comparados a alguns que a modernidade fincou. Ou antigos, caso se tome outros períodos como referencial.

Ouço e vejo o mundo corporativo aproximar de sua pauta o tema da espiritualidade. Empresas que encorajam seus funcionários, dos mais altos executivos aos que desempenham as funções mais básicas, a “exercitar ou desenvolver sua espiritualidade” – como gostam de falar. Sugerem livros. Propõem reflexões. Inscrevem-se em retiros espirituais.

Vale ressaltar, diga-se de passagem, que este movimento não é o da valorização da religião. Não se trata de proselitismo. Não é chefe entregando folheto da igreja “A”, do centro “B” ou do templo “C”. É um reconhecimento do lugar da experiência da fé na vida humana.

Existe um recado neste movimento. Talvez alguns.

Será que existe mesmo um abismo entre fé e trabalho? Será que as empresas perceberam que a fé é importante na vida de seus funcionários? Reconhecem que tudo aquilo que diz respeito à jornada de um indivíduo de alguma forma afeta seu desempenho profissional? Será que acreditam que a prática espiritual dê às pessoas força e estabilidade para lidarem com os desafios? Supõem que alguém possa render mais quando atento a estas questões? Ou que o transcendente possa fazer parte da construção do imanente?

Das coisas que parecem ter ficado para trás, com as primeiras engatinhadas da pós-modernidade, incluo a ideia de que a satisfação do homem está no produto bruto do seu trabalho. Passa por aí. Mas não demorou muito para que percebêssemos que casa própria, carro na garagem e boa remuneração não são necessariamente indicadores de realização. Existem outras lacunas a serem preenchidas.

Assunto para mais tarde.

Por ora, leio essa aproximação como a resposta a uma demanda humana. O poeta já disse que há muito mais entre céu e terra do que supõe nossa vã filosofia. Existe um movimento, que nos é interno, de diminuição da distância entre estas duas realidades. Se é que há distância que as separe.

 

 

(*) QCaptura de tela 2014-07-30 22.53.25uem é Daniel Guanaes?
Entre as várias coisas boas que minha vida no Rio de Janeiro me proporcionou, está a oportunidade que tive de ser provocado pelas reflexões do Daniel Guanaes, que pastoreia a Igreja Presbiteriana do Recreio.
É pastor Presbiteriano, psicólogo clínico, aluno do programa de doutorado da Universidade de Aberdeen.
Mas é, sobretudo, uma pessoa muito interessada na alma humana. Como tal, dedica-se a compartilhar, com honestidade e objetividade, suas observações cotidianas, questionamentos e propostas de vida. Quem ouve o Daniel, não sai sem algumas minhocas bem animadas passeando pela cabeça.
Como esportista, ainda sobra tempo para pegar umas ondas na Praia do Recreio e trocar uns sopapos e chaves-de-braço com sua turma do jiu-jitsu.
É, definitivamente, alguém que está na galeria daqueles que considero descolados e batutas.
Abusado que sou, ousei pedir a ele que escrevesse sobre um assunto a respeito do qual já pretendi escrever um dia, mas acabei desistindo.
Produtivo que é, respondeu-me imediatamente, com o excelente texto, que tenho o privilégio de reproduzir aqui no blog. 
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  1. Nenhum comentário ainda.
  1. agosto 7, 2014 às 10:57 pm

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