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Os pequenos passos do gigante


foto-dispenser-parcaoEm tempos de “gigante acordado”, observei admirado a força da massa e a disposição do brasileiro comum para indignar-se e erguer sua voz. Foram momentos importantes na história do nosso país. Trouxeram de volta o sentimento de que o cidadão não precisa se sentir abandonado e impotente diante das coisas que o incomodam na sociedade. Sim, o brasileiro pode olhar para o lado e convidar o seu vizinho para que, juntos, saiam para a rua levantar sua voz.

Quando isso acontece com vários indivíduos e seus vizinhos em uníssono, ouve-se claramente os passos do gigante passando bem na frente da nossa porta.

Mas já escrevi por aqui que, para mim, tão importantes quanto os grandes passos, considero com muito carinho os pequenos passos, dos pequenos grupos e associações – que, somados, levam a sociedade a conquistas igualmente grandes. Mais do que isso, creio que seja nos pequenos passos que o cidadão consegue perceber mais claramente a relevância do seu papel. Na multidão, se um não faz o que é preciso ser feito, é mais provável que outro se disponha para substitui-lo. Nos pequenos grupos, é mais difícil “delargar” o que de mim se espera.

Digo isso porque, em janeiro de 2013, mudei-me para um apartamento para o qual me foi possível trazer de volta os meus cachorros para morar com minha família. O novo apartamento tem uma varanda mais espaçosa, para que Levi e Luna possam ficar durante o dia. Mas o mais importante na decisão de trazê-los para cá foi o fato de que a poucos metros da nossa casa fica a praça Augusto Ruschi, carinhosamente chamada por seus frequentadores de ParCão.

O ParCão é um bom exemplo daquilo que considero um “pequeno passo” que merece atenção. “De repente”, a partir da necessidade comum de um pequeno grupo de pessoas, que costumavam levar seus cães – a maioria, criados em apartamentos do bairro – para passear, alguém percebeu que havia vários indivíduos querendo a mesma coisa: um espaço comum, uma praça, para que cães e seus donos pudessem passar um tempo juntos, convivendo e aproveitando a diversidade.

Com o tempo, o grupo conseguiu que o espaço da praça tivesse um cercado para que os donos pudessem soltar seus “peludos” (como costumam chamar a cachorrada) e dar a eles a oportunidade de socialização e de exercício. No ParCão, há cachorros que passam todo o tempo correndo de um canto para outro – atrás de uma bolinha de tênis ou simplesmente de outro cachorro –, conhecendo, provocando, dividindo o mesmo pote de água; há outros como o nosso velho Levi, que prefere ficar sentado observando o vai e vem da bicharada e de seus donos ou cuidadores.

E ali, há exemplos daquilo que pode conquistar um pequeno grupo organizado em torno de objetivos comuns: recentemente, o grupo requereu, junto ao poder público, e conseguiu que o espaço recebesse iluminação adicional, para viabilizar passeios noturnos pelo espaço.

foto-parcaoNo ParCão, algumas regras não formais de convivência têm força de lei: recolher o cocô do seu cachorro é obrigação de cada um.
(aqui, devo dizer que, como em qualquer organização social, tem sempre alguém que não está disposto a colaborar. Mas quando isso acontece e alguém percebe, não é raro que o “infrator” seja admoestado e convidado a fazer sua parte na limpeza do local)

Ainda em relação à limpeza do local, pode-se observar vários “dispensers” de sacos plásticos para uso de qualquer um que precisa. Funcionam no melhor estilo “quem tem, põe; quem não tem, tira”. Dificilmente (nunca vi) alguém deixa de recolher as fezes de seu cachorro por falta de saco plástico.

O ParCão atrai também a atenção do comércio local. A Xpet Shop, loja especializada do bairro promove a descarrapatização periódica do espaço sem custo para a comunidade o ParCão. Em troca, divulgamos a marca da loja e, sempre que podemos, indicamos o estabelecimento nossos amigos e conhecidos.
(em tempo: se você é do Recreio dos Bandeirantes ou da Barra da Tijuca e precisar de algo para seus bichos de estimação, dá uma passadinha na Xpet para conferir).

Obviamente, também há por ali gente que não está disposta a adequar-se para viver em comunidade. Não se preocupa em educar seu cão ou intervir quando o animal está, por algum motivo, causando algum tipo de problema para outros animais ou donos – como em qualquer grupo social. Mas é bom dizer que esse pessoal não representa a cara da comunidade do ParCão.

Há ainda muitas histórias e exemplos – que vão desde campanhas para adoção de animais abandonados até convite para pessoas adotem uma planta da praça para ser regada em períodos de estiagem – mas acho que já falei o suficiente.

Enfim, é provável que seu foco de interesse nada tenha a ver com cães, animais de estimação ou coisa parecida. Para falar a verdade, nosso país tem necessidades mais graves e profundas do que uma praça para meu cachorro caminhar fazer suas necessidades fisiológicas. Da mesma forma, deve haver exemplos tão bons ou melhores de mobilização social do que o ParCão Recreio. Só achei que, por sua singeleza e aparente superficialidade, a experiência aqui relatada podia estimular a reflexão sem o peso das causas “mais graves” como as crianças e os velhos abandonados, a violência urbana, os desafios da educação.

O fato é que comunidade à nossa volta certamente tem necessidades e interesses comuns, só esperando mim e por você, para que nos levantemos e chamemos nosso vizinho ou nosso amigo para os pequenos passos dos pequenos grupos – que, lá na frente, vão fazer parte da grande caminhada do gigante.

Vem pra rua?

Notas Finais:
1) Não conheço a história dos primórdios do ParCão. Sei que uma das idealizadoras (se não, a principal idealizadora) chama-se Luciana Estefanio. Até hoje, é uma das mais batalhadoras para que as coisas aconteçam e evoluam por ali. Ela também usa o Facebook com bastante sabedoria para divulgar, convocar, discutir.
2) Para saber mais, acesse o site do ParCão: www. parcaorecreio.com.br
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Categorias:pensando
  1. janeiro 25, 2014 às 6:09 pm

    Me senti lisonjeada ao ler essa matéria. Ao lutar pela praça augusto ruschi que só tinha nome de praça, mas era só matagal e chei de entulhos pois soube que em 2003 foi aterrada com resíduos sólidos de construção civil, uma agressão ao nosso meio ambiente, eu imaginava mesmo um espaço muito verde, com arvores frutiferas, um cercado para os cães, um parkids para as crianças, uma academia para os idosos (ainda não consegui isso) banquinhos no seu entorno, mesas, enfim um espaço agradável para que os todos pudessem usufruir, integrar, fazer pic nics. Cultivei isso ali.
    Fiz cafe da manga, pic nic, festas, queijos e vinhos. Tudo ao ar livre, convocando toda a vizinhança e todos vieram e cada um deu um pouco de si.
    Hoje continuamos com nossos eventos e somos uma grande familia!

    Obrigada por homenagear o nosso Amada Cantinho.
    Bjs
    Lu Estefanio

    • lcribeiro
      janeiro 25, 2014 às 6:36 pm

      Puxa… que honra ter um comentário da pessoa que tem feito de sua vida e de sua luta um alento para as pessoas. Aliás, você conta aqui um pouco mais da história do ParCão, que valoriza ainda mais os resultados que vemos hoje.
      É muito legal quando vejo você e outras pessoas estendendo suas toalhas sobre o gramado da praça. Em uma cidade grande e movimentada como esta, é uma conquista e um marco para quem passa por ali.
      Grande abraço!

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