Início > fábulas corporativas, gestão > Era uma vez… um berço usado

Era uma vez… um berço usado


Revisando algumas coisas que já escrevi, achei este artigo – postado no site da Logiko. Apesar da “antiguidade”, entendo que esta série ainda serve para nossos dias.

Era uma vez… João e Maria.

Essa história, todos conhecem: Passeavam todo dia pela floresta até que, um dia, perderam-se e acabaram presos na casa de uma bruxa malvada, que tinha intenção de dar uma churrascada para a turma da faculdade, assando a carne macia das crianças. Graças ao autor da história, a coisa desenrola-se de tal maneira que, no fim das contas, a bruxa morre de forma horrível (como bruxas malvadas devem morrer) e João e Maria voltam para a casa – felizes.

O que pouca gente sabe é o que aconteceu depois daquele episódio. Pois bem… Os anos passaram para João e Maria, como passam para qualquer pessoa.
João foi para a faculdade. Cursou Engenharia de Processos, mas gostava mesmo é de muito dinheiro, e acabou virando “lobista”. Casou-se com Clara e teve dois filhos, vivendo uma vida confortável.
Maria, que era mais nova, casou-se um pouco mais tarde, com Eduardo, seu colega de classe na faculdade de Ciências Sociais. Como cientistas sociais, passaram a viver aquela vida simples e honesta, desapegada das grandes ambições consumistas.
Quando Maria ficou grávida do seu primeiro filho, em vista do orçamento apertado, decidiram que a melhor opção seria comprar de João o berço usado (afinal de contas, os meninos já estavam grandes, e o berço estava desmontado e encostado num canto da casa).
Depois de uma certa discussão, Eduardo e Maria compraram o berço em três cheques – para o dia 15 de cada mês.

Olha… Tenho um amigo que, quando vê algo com o quê ninguém está contente, diz: “isso é igual a venda de berço usado; comprador e vendedor sentem que foram lesados”.

No fim, João sai praguejando contra a mesquinhez e falta de sensibilidade de Eduardo, que reclamou do preço, e ficou pechinchando para comprar aquele que tinha sido o berço que embalou as noites de dois filhos lindos.
De outro lado, Eduardo sai resmungando com Maria sobre a cara-de-pau e coragem de João, por cobrar tudo aquilo por um berço riscado, com as juntas frouxas e com aquele colchão cheirando a urina…
E foram infelizes para sempre!

Esse tipo de coisa é mais comum do que se pensa, e não é muito diferente no mundo corporativo. Histórias como essa acontecem com certa frequência, e mostram quão frustantes e estressantes podem ser relacionamentos comerciais. Muitas vezes, o que é celebrado com um lauto almoço em um restaurante chique, termina (ou, pior, arrasta-se inacabado) com sentimentos profundos de rancor.

Há ainda fatores complicadores. Transações simples de compra e venda são muito menos arriscadas do que um “Contrato de Prestação de Serviços de Outsourcing de Tecnologia da Informação.” Contratos de Prestação de Serviços de Outsourcing deTecnologia da Informação acumulam potenciais de problemas, em – digamos – progressão geométrica. Vejamos:

  • Contrato de Prestação de Serviços – Representa um relacionamento mais longo. Quer dizer que, para desistir de um negócio destes, as partes vão ter de executar as cláusulas de rescisão e multa, sempre dolorosas.
  • Outsourcing – Define algo sobre o que já se fazia internamente e, por algum motivo, às vezes, não totalmente claro, decide-se que vai ser feito por alguém de fora, que não conhece o contratante e o seu jeito de fazer as coisas.
  • Tecnologia da Informação – Gente de Tecnologia da Informação é, às vezes, arrogante, impaciente com a ignorância alheia e, pior, tem prazer mórbido em usar siglas e termos em Inglês (UML, PMI, COBIT, ITIL, Java, ERP, “bug!” etc.) nas conversas e discussões. Uma caixa preta de Pandora, de onde podem sair monstros e males inimagináveis.

Assim, ouso dizer que “Contratos de Prestação de Serviços de Tecnologia da Informação” só são menos perigosos do que “compras de berços usados”!

Como, então, sair ileso desse mundo de armadilhas e perigos?

No caso do berço, por exemplo, percebe-se que a frustração Eduardo e Maria estava diretamente ligada com o fato de ser um artigo usado, com a qualidade típica de um artigo usado, obviamente diferente do que esperavam. Em contrapartida, não tinham dinheiro para comprar um berço novo. João, no papel de vendedor, limitou-se a dizer que “estava em perfeito estado de conservação” (para um berço usado, claro).

Assim, em primeiro lugar, devemos ter em mente que a percepção do sucesso de qualquer empreitada é o resultado de uma função com três variáveis distintas: a Expectativa, a Qualidade e os Ganhos. Como recurso mnemônico, sugiro representá-la com notação matemática:

Sucesso = f(Expectativa, Qualidade, Ganhos)

Como, então, garantir que Expectativa, Qualidade e Ganhos cooperem para a máxima percepção do Sucesso? Isso é o que veremos no próximo artigo da série.

Anúncios
  1. Antonio Gerson de Araujo
    março 6, 2012 às 12:59 pm

    Lau, como muita gente, pretendo escrever um livro!… Conhece essa?

    O último arroubo que tive nesse sentido, foi juntar alguns artigos publicados (2a pg: Opinião) no Jornal da Cidade de Bauru, por uns 3 anos, mas não diários, claro. Mais um pouco darei o… 2o. passo…

    E voce? Já escreveu e eu não sei? Ou não escreveu? Juntar suas cronicas…

    Uma dica: nosso primo Ricardo, do Tio Mané e editor, ou outro título do ramo.

    Admiro muito seus escritos; sinto que não nos conhecemos pessoalmente mais!…

    Abraço,
    A Gersom

    • lcribeiro
      março 8, 2012 às 1:49 pm

      Puxa, meu amigo…

      Em primeiro lugar, muito obrigado pelo incentivo. Você não faz idéia de quão valioso é ler isso, vindo de alguém que admiro há muito tempo.

      Agora, ouso dizer que devíamos tomar vergonha na cara e agirmos na direção de publicarmos essas coisas que andamos “cometendo” vida afora.
      “Usar” o glorioso Ricardo para a empreitada pode não ser uma má idéia. Ele pode, realmente, nos dar algumas dicas. Além disso, com a experiência, sensibilidade e (perigosíssima) sinceridade, pode incentivar-nos ou tirar essa idéia de nossa cabeça de uma vez por todas.

      A propósito, confesso que já pensei em investigar, com mais objetividade, o processo de publicação de ebooks nas lojas Apple e Google. A Apple pareceu-me um tanto “leonina” para com os “autores”. Pode ser que Google tenha algum modelo mais “aberto”. Mas, ressalto, é algo que carece de investigação mais apurada. Aí, novamente, pode ser que tenhamos uma ajuda valiosa do Ricardo.

      Que tal?

  1. janeiro 18, 2012 às 8:22 pm

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: