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Tartarugas mutantes no ambiente corporativo – um mito


Este post foi inspirado em um tweet do meu amigo @FabioLCSilva

Na minha terra, quando alguém deixa acontecer algo que poderia ter sido facilmente evitado, dizemos que aquela pessoa deixou a tartaruga(*) escapar.

Pois hoje eu quero falar sobre o mito das tartarugas mutantes no ambiente corporativo.

Porque é incrível como, ainda hoje nas empresas, com centenas de ferramentas de produtividade, de comunicação e de colaboração, vez por outra, vemos uma tartaruga que logrou fugir do seu cercadinho.

O caso recente da Brastemp é típico. Um cliente que teve um problema com a sua geladeira passou por uma sucessão de pequenos equívocos no atendimento ao consumidor, na assistência técnica, na área comercial…  Resumindo, quando se deu conta, o consumidor se viu num tremendo imbróglio com a fábrica: gastou horas em dezenas de vezes ao telefone com o serviço de atendimento ao consumidor; recebeu visita de técnicos e até chegou a desembolsar dinheiro em um acordo para comprar um modelo mais novo da marca. O tempo passou, e o problema se arrastou por mais de seis meses – período em que o consumidor ficou sem geladeira em casa. O caso foi parar nas redes sociais (Youtube, Twitter, Facebook), e a imagem daquela empresa tão tradicional e conceituada acabou irremediavelmente arranhada.

De hoje em diante, sempre vai ter alguém para dizer que “a Brastemp não é assim uma Brastemp”.

Esse é um caso típico de uma tartaruga que fugiu por entre os dedos das pessoas que estavam tomando conta dela. Um foi deixando para o outro, que pensou que um terceiro estava olhando, que pensou…

Na busca por entender o que pode ter acontecido a uma empresa séria e com uma estrutura desenhada para atender clientes e garantir a qualidade do seu produto, alguém pode achar que tratava-se de uma tartaruga mutante – com poderes especiais. Infelizmente, a realidade é que elas não existem.

As tartarugas que escapam no ambiente corporativo são aquelas mesmas que nós conhecemos. Cascudas, preguiçosas e lerdas.

Então, como elas escapam?

Eu penso que escapam porque, nas nossas estruturas, tem gente mais cascuda, mais preguiçosa, e mais lerda do que o mais lerdo dos répteis testudíneos.

Essas pessoas são aquelas que não estão interessadas em fazer mais do que o seu trabalhinho medíocre, chegar no seu horário, bater o seu ponto, marcar sua presença no escritório.

  • Aquele relatório financeiro que tem aquela pequena diferença… ah… não faz mal.
  • Aquele programa de computador com aquele código acochambrado, que não trata aquelas condições que, afinal de contas, dificilmente vão acontecer… ah… um dia, eu dou uma melhoradinha nele.
  • Aquela rotina operacional, que se faz mecanicamente, que gera relatórios com toneladas de páginas e que são enviadas para alguém que não lê uma linha sequer; aquele trabalho, que poderia ser feito de forma mais eficaz e produtiva, mas ninguém pediu para fazer diferente… não sou eu quem vou ficar arrumando sarna para me coçar.

Bom… quem tem um mínimo de experiência sabe  que, um dia, o acúmulo de pequenas diferenças podem causar um grande rombo nas contas da empresa. Um dia, aquele programa encontra uma condição que não consegue tratar e para na hora errada ou, pior, dá um resultado incorreto, levando a uma tomada de decisão equivocada. Um dia, aquele problema daquele cliente, que poderia ter sido resolvido com meio quilo de atenção, transforma-se em um caso que vai parar na mídia.

Pronto! O executivo sai urrando pela empresa, querendo saber quem deixou a tartaruga escapar. Qualquer explicação parece uma desculpa esfarrapada. Nesse momento, como último recurso, alguém tenta fazer as pessoas acreditarem que aquela tartaruga era ninja e saiu voando sem que alguém fosse capaz de detê-la.

Tarde demais. O estrago já terá sido feito.

Já passei por isso (sim, deixei algumas escaparem) e não foi nada legal.

Se você, por acaso, em algum momento da sua semana ou do seu dia, age como aqueles que deixam tartarugas escaparem, pense um pouco. Você não vai querer que aquela cascuda, de quem você toma conta, dê aquela voltinha enquanto você não está olhando e, do nada, apareça grávida.

Ninguém vai acreditar que ela tem super poderes. Até porque, todos sabemos que ela não tem.

(*) Na verdade, o correto seria dizer “jabotis mutantes”. As tartarugas são espécimes (da mesma família) aquáticos, que movem-se agilmente pelas águas marítimas (os cágados são de água doce). Mas, popularmente, o termo tartaruga é usado para descrever todos esses répteis de maneira genérica.

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  1. fevereiro 11, 2011 às 10:54 pm

    Pois é Laércio.
    Isto tem sido cada vez mais frequente, mas a desorganização e “pouco-casismo” está em todas as esferas.
    Tanto que no nosso Congresso se criou a figura da “urgência urgentíssima”.
    Nesses casos, faço uso da frase de uma grande amiga minha que dizia sempre pro nosso Master of the Universe:
    – Não faça da sua desorganização a minha urgência.

    Abraços!
    Fábio

    • lcribeiro
      fevereiro 11, 2011 às 11:00 pm

      Valeu, Fábio!
      Aliás, o post foi inspirado pelo seu tweet!

  2. Ale Notte
    fevereiro 11, 2011 às 10:59 pm

    Ótimo texto Laercio! A constatação do ser mais lerdo que o cágado é real, mas o que tem de lebre apanhando da tartaruga, não é fácil…

    • lcribeiro
      fevereiro 11, 2011 às 11:01 pm

      Ei, amigo!!!
      Rapaz… o Fábio me deu a idéia para o post. Agora vc acaba de me dar outra 😉

  3. Albano
    fevereiro 12, 2011 às 8:28 am

    O seu texto é muito bom. A figura da tartaruga (jaboti) é muito feliz. Partindo da lebre do Ale, podemos criar um zoológico corporativo. O leão preguiçoso, o macaco do “jetinho” alegre, o hipopótamo que vive afundado… Muitas vezes podemos nos ver como uma dessas figuras. No final seu texto é um presente como se voce me desse um espelho para me examinar. Deus continue te abençoando com sabedoria, alegria e comunicação. Abraço

    • lcribeiro
      fevereiro 14, 2011 às 1:12 pm

      É verdade, Albano.
      Já fiz uma série de textos com analogias de personagens do mundo corporativo e personagens de um circo.
      Em relação à selva corporativa, eu publiquei somente um artigo, falando de instintos humanos x instintos animais – https://posteino.wordpress.com/2010/11/05/instinto-animal-instinto-humano/

      Vou começar a trabalhar a selva corporativa. 😉

      Um abraço!

  4. Andrea
    fevereiro 12, 2011 às 8:41 am

    Amei este post. Isto também acontece porque os detalhes não interessam, depois a gente ve. Vamos por no ar e pronto!

    A frase do cometário do Fábio entao vai virar lema: “Não faça de sua da sua desorganização a minha urgencia!”

    Beijos.

    • lcribeiro
      fevereiro 14, 2011 às 1:15 pm

      É, moça…
      A mancada do “Detalhes não interessam… depois a gente vê” é casada (ou amante… não sei) do “… esse é um problema que queremos ter!”.
      Dessa união nefasta, nasce a desorganização…
      Abraço!

  5. Fabricio
    fevereiro 17, 2011 às 8:06 pm

    Cara, mto bom o post e conversa ‘pós-post’…

    Lembrei de um post anterior muito interassante, pode-se dizer que depois que a tartaruga escapa é hora do “The Caxangá Game”

    Abraço

    • lcribeiro
      fevereiro 17, 2011 às 8:58 pm

      Puxa… é verdade: “the caxangá game” é o mecanismo mais usado, principalmente em situações de crise (como acontece no caso de fugas testudíneas). 😉
      Abraço!!!

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