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A perigosa arte de caxanguear


Quando criança, aprendi uma cantiga de roda. Era mais ou menos assim

Escravos de Jó jogavam caxangá
Tira, bota deixa ficar
Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue za

Pessoas em volta de uma mesa, cada um com um objeto (geralmente, um copo) na mão. Ao ritmo dos versos cantados, os jogadores ficavam trocando as peças com vizinho do lado. Quem errava na troca (passando na hora que não é para passar ou passando para o lado errado) era eliminado da brincadeira.

Em algum momento da minha infância, por alguma razão que desconheço alguém me disse que era “coisa feia”. Como não gostava mesmo de brincadeiras de roda, nunca mais cantei.

Mas do objetivo e da dinâmica do jogo eu não me esqueci: passar sempre e rapidamente, para o vizinho mais próximo, do jeito certo, o que viesse à mão.

Olhando para a história, percebo que o conceito por trás desse costume confunde-se com os primórdios da humanidade. No Éden, quando questionado sobre o que ficou conhecido como “o pecado original”, Adão foi logo respondendo que “a culpa foi dessa mulher que o Senhor me deu” – demonstrando talento nato para o caxangueado.

Desde então, aquilo que começou como uma prática de auto presevação ganhou adeptos no mundo inteiro e através dos tempos, tornando-se dos esportes com maior número de praticantes no planeta, nos mais variados ambientes – familiar, político, esportivo etc.

Entretanto, dia desses, me dei conta de que “Escravos de Jó” encontrou no ambiente de trabalho as condições mais adequadas para sua difusão. Desde o mais inocente e inexperiente estagiário (que, como se sabe, “não é gente”) até o mais graduado e tarimbado executivo, essa é a mais nobre arte, na qual todos devem empenhar seus melhores esforços para a prática proficiente – passando para o outro qualquer coisa que lhe seja atribuída como responsabilidade. Muitas vezes, resolver o problema não é o mais importante. Eximir-se da culpa é que é o segredo do sucesso.

Nos últimos anos, com a ajuda da tecnologia, os caxangueadores foram munidos de ferramentas poderosíssimas para aumento de sua performance. O melhor exemplo é o “email longo, com extensas justificativas e questionamentos técnicos – enviado com cópia para todo mundo, com aviso de leitura”. Simples e traiçoeiro, ele é a arma mais comum e eficiente para passar para o próximo algo que está na sua mão – tanto que até a comissão anti dopagem da FICA (Fédération Internationale de Caxangueado Association) já está de olho no uso abusivo desse subterfúgio.

Há aqueles que, contra a maré, esforçam-se para estancar a expansão do caxangueado. Diz a história que o presidente americano Harry Truman mantinha sobre sua mesa de trabalho uma placa com a frase “the bucket stops here” – em clara afronta aos amantes da arte de caxanguear.

Sinceramente, esforço-me em fazer parte da resistência a essa prática perniciosa. É coisa que exige determinação e concentração – porque você e eu sabemos que, muitas vezes, é mais fácil render-se à tentação de “tirar, por e deixar ficar”.

Olha… pensando bem, acho que quem me disse que brincar de “Escravos de Jó” era coisa feia não estava tão errado assim.

Pense nisso antes de entrar na próxima reunião ou enviar seu próximo email. 😉

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  1. Alexandre Araujo
    janeiro 4, 2011 às 9:21 pm

    Laercio,

    Muito boa palavra. Como tambem conheci esse jogo na infancia, posso imediatamente entender o valor da metáfora.
    Abraços

    • lcribeiro
      janeiro 4, 2011 às 9:23 pm

      Olá, Alexandre. Obrigado pelo incentivo.
      É uma honra tê-lo como leitor do meu blog.
      Grande abraço!

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