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Escrita a lápis


Que bom se a vida pudesse ser escrita a lápis!

Sim! O que está escrito a lápis pode ser apagado e corrigido, quantas vezes for necessário!

O caro amigo está nos informando que também os computadores nos dão esse recurso: usar o “delete” ou a tecla “insert” e tudo passa a ser corrigido. Mas não vamos ficar com o computador; é coisa moderna, nem todos têm acesso a ele e, além do mais, o computador só chegou em minha vida quando eu tinha 57 anos. Vou escrever minha vida, verdadeiramente a lápis.

Se eu pudesse escrever minha vida a lápis, apagaria algumas coisas.

  • Quando menino, apagaria poucas coisas: apagaria aquele dia em que com os amigos, pela madrugada, retiramos a placa de “Trânsito Impedido” da estrada de rodagem em obras e a colocamos na linha do trem. Era tarde. Eu, Gerson e João não ficamos esperando o trem para ver o que aconteceu.
  • Também apagaria aquele episódio em que Dona Olga, minha professora do primeiro ano primário, hoje primeiro ano do primeiro grau, só valorizava quem dava donativos para sua paróquia. Antes do recreio, fazia uma preleção dizendo que devíamos dar parte do dinheiro de nossas merendas para os pobres, e passava uma sacolinha de pano como se faz hoje em muitas das igrejas. Quanto a mim, que não queria perder a atenção da professora mas não tinha moedas, quando a sacolinha passava, fingia colocar uma moeda na mesma e não colocava nada. Um dia todos estavam duros, ninguém doou nada e minha esperta trama – espertíssima para quem tinha só sete anos – foi descoberta.
  • Na minha adolescência pouca coisa errada eu fiz e nada apagaria. Estar interessado nas pernas da filha da vizinha não era nada errado. Errado seria eu não me sentir atraído. Isto eu não apagaria, ou melhor, até sublinharia este trecho para destacá-lo.
  • E na juventude? Na juventude apagaria aquele trecho em que tive problemas com a família da Zezé. Comecei a namorar a Zezé e ia tudo muito bem, até que descobri que sua mãe era tão ciumenta que rasgava a roupa do marido para que o maridão não saísse à rua bem vestido e fosse alvo dos olhares das mulheres (atenção: o pai da Zezé era extremamente feio). Àquele tempo já estudava genética e psicologia e Zezé começava a dar sinais de ciúmes infundados. Era hora de eu desmanchar o namoro, “rapar fora” como se diz hoje na gíria. A família queria saber o motivo do rompimento. Fui educado e não falei. Todos vieram contra mim como se eu fosse obrigado a namorar e casar com aquela moça. Este episódio eu apagaria. Vamos apagá-lo já.
  • Na vida adulta uma coisa apagaria, é certo que apagaria: o tempo em que fiquei pouco com as minhas filhas. Isto apagaria mesmo, sem qualquer dúvida! Precisava ter ficado mais com cada uma delas, andar mais com elas de mãos dadas na praia, andar mais à beira do rio, vê-las crescerem, ensiná-las tudo que eu soubesse, viajar mais de carro, senti-las mais em minha vida, brincar com as palavras, consertar lhes os brinquedos e fazer brinquedos novos de madeira e papel. Cuidar de seus acidentes: queimaduras, quedas na piscina… Participar das brincadeiras com seus coleguinhas, levá-los mais vezes à escola. Saber, por outros, de seus primeiros namorados. Enfim, queria viver com elas a cada momento de alegria, e pô-las no colo a cada momento de lágrimas.

Esses momentos em que fiquei pouco com elas eu apagaria, é certo que apagaria.

O criador me deu uma borracha, acompanhada de um bilhete onde estava escrito: para apagar os erros da vida. Mas é uma borracha pequena, mínima mesmo, e só dá para apagar um episódio. Apagarei, é certo, o tempo em que fiquei pouco com as meninas.

E você, o que apagaria se a sua vida fosse escrita a lápis?

Por Frederico Carvalho

Outros textos de Frederico Carvalho neste blog:

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  1. eliane mendes
    setembro 15, 2010 às 8:42 am

    muito legal! Palmas para o sogrão!

  2. Fabricio
    setembro 15, 2010 às 10:20 am

    muito legal! Palmas para o sogrão! (2)

    Olha, deu uma vontade de largar tudo aqui no serviço e ir pra casa, dar um abraço apertado no Joao Pedro e na Melina…

  3. Simone Carvalho
    setembro 15, 2010 às 9:21 pm

    Nossa, muito lindo!
    Tio Fred como sempre arrasando.
    Amei demais.

  1. fevereiro 19, 2012 às 11:22 am

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