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O macaco cientista


Esse post faz parte da série “O circo chegou! Vamos todos até lá!

O primeiro personagem da trupe circense, apresentado na música O Circo Chegou (Jorge Ben Jor), é o enigmático macaco cientista. Esse espécime circula pelos corredores da corporação, envolto em mistério e folclore.

Quase toda organização tem uma área ou conhecimento que, com o tempo, acabou ficando na cabeça de um único profissional. Isso pode ter acontecido porque era um assunto relacionado com alguma especialidade, sobre a qual a empresa desenvolveu ou apoiou seu negócio. Eventualmente, aquilo exigiu aprofundamento técnico. Convenhamos, não é todo mundo que tem paciência de debruçar-se sobre um assunto (uma especificação de equipamento, de sistema de computador, uma legislação setorial específica) e esmiuçá-lo até o fim. O nosso personagem é aquele camarada que teve a iniciativa, a paciência e a dedicação, tornando se “o cara” (“the face”, como costumamos brincar) em determinado assunto.

Embora tenha sido um processo legítimo (houve a necessidade de alguém, houve a disposição e a competência do indivíduo), naturalmente, a relação da empresa com ele acaba se distorcendo, gerando uma dependência perniciosa. O cara tornou-se “o especialista”. Supostamente, só ele tem os conhecimentos na profundidade e necessária para a continuação do negócio da empresa. Com o tempo a tendência é que, esse símio, que é objeto de respeito, admiração e temor, comece a gostar da situação. Um dia, ele ameaça deixar o barco e percebe uma comoção e preocupação geral – do presidente ao tio do café – com a sua saída. Em resposta, concedem-lhe um aumento, passam-lhe a mão na cabeça… E, “se espirrar no fim-de-semana, saúde!”.

Pronto! Estabeleceu-se o habitat perfeito para o monstrinho, que se torna cada vez mais fechado em sua especialidade – além de refratário a mudanças e improdutivo. Respostas a eventuais questionamentos são as típicas: “Isso é complexo”, “Você não vai entender”, “Ouça o que eu estou dizendo: é assim e não pode ser de outra maneira”, entre outras.

Todos são assombrados por sua influência e ameaças. Até que, um dia, um gestor “irresponsável e desavisado” o demite. Não raro, descobre-se que, apesar de alguns solavancos, a empresa sobrevive. Eventualmente, até encontra-se uma maneira melhor de fazer o que estava sendo feito antes. E, mais uma vez, descobre-se que ninguém é insubstituível.

Já conheci alguns macacos cientistas. Não sinto saudade de nenhum deles.


Nota: repito que, em determinadas ocasiões, eu mesmo já desempenhei alguns papéis retratados nessa série.

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  1. abril 27, 2010 às 6:12 am

    Laércio Ribeiro, caríssimo

    Muito embora eu não me enquadre, absolutamente, de modo algum, nem por sombra, nessa figura que você descreveu…

    … usei a mesma imagem desse macaco, levemente parecido comigo, na minha primeira aula de Estatística para Psicologia.

    Sintomático???? 😉

  2. Celso
    abril 28, 2010 às 2:58 pm

    Não fosse a nossa amizade, acharia que me chamou de irresponsável ….

    • lcribeiro
      abril 28, 2010 às 3:04 pm

      você é um irresponsável.
      tem minha admiração por isso.

  3. Thiago
    maio 5, 2010 às 12:00 pm

    E a fauna continua crescendo! A primeira criatura que o Laércio me apresentou foi o Jabuti, aquele que estava em cima da árvore, dai em diante sempre consigo um tempinho para conhecer os demais.
    Abraços!

    • lcribeiro
      maio 5, 2010 às 12:03 pm

      É, velhinho… a fauna é grande… e, às vezes, hostil.
      É bom ficarmos espertos. Com um pouco de jeito, atenção e bom humor, acabamos aprendendo a conviver… e até gostando do movimento. 😉

  1. abril 27, 2010 às 12:18 am

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