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A parábola da galinha e do porco – as aparências podem enganar


Há alguns anos, eu li pela primeira vez a parábola da galinha e do porco. Gostei da analogia. A galinha é “envolvida”; o porco é “comprometido”. A história se popularizou. Os fenômenos da internet e da web 2.0 trataram de fazer com que os incautos que ainda não tivessem tido a oportunidade de conhecer os dois estereótipos profissionais, não ficassem alheios à mensagem: as empresas valorizam os colaboradores comprometidos.

Enfim, o porco ganhou o respeito e admiração da fauna corporativa! Em contrapartida, a galinha passou a ser tratada como cidadã de segunda categoria. Em pouco tempo, todo gestor que se prezasse tinha um sonho: trocar seu galinheiro por uma bela pocilga – cheia de exemplares rechonchudos e ávidos por entrarem na faca.

É… Alguém já disse que devemos tomar cuidado com as analogias. Elas têm um limite. Eu entendo que a analogia é muito útil quando nos faz refletir e, a partir daquela provocação inicial, deixamos o mundo das fábulas e passamos a reavaliar nossos próprios modelos mentais com aplicações práticas e adequadas à realidade. Como isso requer certo esforço (pensar, estruturar e solidificar idéias, entre outras coisas, pode doer um pouco), há aqueles que preferem, em cima de uma alegoria, desenvolver um modelo de gestão simplista e simplório: no caso, porco-in, galinha-out.

Posso dizer que o resultado prático dessa visão leviana tem criado algumas distorções. Tenho visto dois tipos distintos:

  • O suíno e seu caráter sacrificial – Sempre o último a sair (mesmo que não tenha nada a fazer), primeiro voluntário em qualquer grupo ou atividade (mesmo sem a habilidade ou conhecimento para as tarefas – que vai ser compensado com um tremendo esforço, claro), candidato a chefe da porcada (sempre disposto a denunciar qualquer recaída galinácea da tropa) etc. Suas olheiras de sono mal dormido são objeto de autopromoção e de admiração pública.
  • O galináceo e sua insignificante produção de ovos – Aquele que, todo dia faz o seu papel de maneira padronizada e abnegada. Entra e sai no horário (evita as horas extras), mas não deixa nada por fazer. Preserva-se, a fim de continuar produzindo seus ovinhos por muitos anos.

Sinto-me obrigado a perguntar :

Será que essa legião de porcos (mais precisamente, essa vara) que temos visto não tem usado essa entrega quase insana como um meio de esconder suas limitações e erros, conquistando sua cadeirinha cativa na empresa (e no nosso coração) como aquele que “não é lá muito bom, mas é tão dedicado”?

Por outro lado, será que não temos menosprezado e subestimado o trabalho simples, mas previsível e pontual das galinhas? Aliás, eu nunca tentei, mas não me atrevo a dizer que colocar um ovo seja tarefa trivial.

Atenção! As aparências podem nos pregar uma grande peça.

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  1. Andrea
    abril 23, 2010 às 9:30 am

    É, realmente muito oportuna a reflexão… Pior são os porcos que enrolam o dia todo, para trabalhar das 18h as 22h….

    • lcribeiro
      abril 23, 2010 às 3:06 pm

      É fato!
      Foi pensando nesses também que escrevi o post.
      No fim das contas, o resultado do trabalho desses não pode ser outra coisa que não uma “porcaria” mesmo. 😉

  2. T. Zambelli
    agosto 12, 2010 às 9:17 am

    Cheguei ao post através do Twitter. Gostei muito do que escreveu… Costumo, como você citou, observar os limites das analogias, mas sem deixar, como você fez, de levar em consideração tais limites. Melhor do que o “porco e a galinha,” para completar a história, é o caso do “bife à cavalo.” Nele temos mais personagens: a galinha (ovo), o boi (carne) e o cavalo (fama). Acho que você escreveria um ótimo post sobre isso!

    • lcribeiro
      agosto 12, 2010 às 10:01 am

      Muito boa!
      É verdade, Zamba.
      Vou começar a trabalhar em uma evolução desse post para tratar do “bife à cavalo”.
      Obrigado pelo comentário e pela dica.
      Grande abraço!

  3. janeiro 24, 2012 às 12:49 pm

    Muito bom, Laércio. Gostei sim. Mas acho que temos de ter cuidado para não generalizar. Nem todos os porcos têm as características citadas (o último a sair sem nada para fazer ou o primeiro voluntário sem conhecimento). Nestes casos, eles, talvez, sejam apenas bons profissionais que se comprometem com a organização, seja qual for o motivo/motivação.

    Agora, para profissionais não tão bons, assumir a posição de porco comprometido soa como uma boa solução. rs

    • lcribeiro
      janeiro 24, 2012 às 1:48 pm

      É claro, Maria Luisa. É por esse motivo que o título diz que as aparências “podem” enganar.

      Resolvi escrever o texto porque, com a moda de enaltecer a atitude dos “comprometidos”, percebi que surge, cada vez com mais frequência, o tipo de profissional que gosta de dizer que chega cedo, sai tarde, sofre muito para fazer tudo o que faz… e é valorizado, não por sua capacidade em fazer certo o que precisa ser feito, mas por “varar a noite” – muitas vezes, corrigindo o trabalho (com o perdão do trocadilho) porco que ele mesmo fez. 😉

  4. GEF
    abril 23, 2014 às 3:59 pm

    Há alguns anos trabalhei numa empresa onde as entregas pessoais refletiam diretamente no resultado financeiro da empresa no fim do mês, e, no mês seguinte, sempre era divulgado o ranking dos mais produtivos, financeiramente falando. Eu era meio termo, chegava no horário, as vezes ficava até mais tarde, mas nem sempre podia ou queria ficar. Quase sempre terminava em terceiro lugar no ranking dos mais rentáveis para a empresa. Um colega que nunca chegava no horário, muitas vezes saia mais cedo, e quase nunca ficava até mais tarde, e, na maior parte da semana trabalhava 5 horas por dia, ele era o banban da empresa. Sua participação isolada nos resultados financeiros representava 50% do total. Qual era o segredo dele? Inteligência, inteligência pura para o trabalho e para a produção de valor. Na analogia, ele era uma galinha sim, mas de ovos de ouro. Quando decidiu deixar a empresa, passou um pouco mais de 1 ano e a empresa começou a sofrer com resultados financeiros ruins ou cada vez mais inatingíveis. Moral, muitos dos porcos perderam o emprego porque a galinha de ovos de ouro saíra um ano antes. Então, pra mim, hoje vale a inteligência, produto cada vez mais escasso no mercado,

    • lcribeiro
      abril 24, 2014 às 4:31 pm

      Pois é, GEF. O objetivo do post era exatamente esse: fazer com que as pessoas parassem para refletir sobre o que se passa em seu próprio ambiente de trabalho e resistirem à tentação de uma simplificação, como alguns modelos, modas e/ou conselhos de gurus modernos podem nos levar a cair.
      Pelo visto, você aproveitou o texto e fez uma boa reflexão, com boa aplicação. 😉

  5. abril 24, 2014 às 5:15 pm

    Parábolas corporativas são sempre desenhadas em função da proteção de uma classe ou indivíduo escondendo por traz da mesma interesses daqueles que detêm o poder e desejam lucro acima do bem estar humano. Ignorar o pepel metódico e continuo das “galinhas” em detrimento dos “porcos” nada mais é que uma visão distorcida da administração de resultados. Imagine se todos seus funcionários fossem apenas como os porcos. Como nos leva a crer a parábola, um dia você ficará sem porcos.
    Diferentemente do maior criador de parábolas que conhecemos, Jesus, que sempre as utilizava com intuito de advertir e orientar a todos e coloca-se no centro da parábola como aquele que trará a direção e o caminho correto a todos que nEle confiarem, sem penalizar ninguém.
    Porcos e galinhas deveriam viver em perfeita harmonia, cada um executando sua tarefa e complementando suas limitações.
    Eu ainda acrescentaria então um outro tipo de funcionário, a “vaca” que tem a capacidade de produzir rotineira e metodicamente todos os dias a mesma coisa (o leite) e ao mesmo tempo pode gerenciar projetos de longo prazo, (um bezerro) que um dia será um grande investimento, sendo que ainda pode ser completamente comprometida no trabalho (um churrasco). Então, que tipo de profissionais seremos?

    • lcribeiro
      abril 24, 2014 às 5:48 pm

      Olha, Johnny, creio que algumas dessas parábolas podem ter sido criadas em função de algum tipo de proteção de interesses de determinado grupo.
      Também gosto de pensar que algumas outras possam pecar pela visão unilateral ou maniqueista sobre alguma questão – às vezes, em função de puro envolvimento emocional.

      Já a vaca… essa (tal qual o cavalo, citado pelo Zambelli em um dos comentários acima) é um caso à parte, que mereceria um post.
      Alguém, que não ande tão preguiçoso ultimamente, se habilita? 😉

  1. outubro 15, 2012 às 11:55 am

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