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Tiradentes, vai na frente que eu não vou!


Reprodução da obra "Despojos de Tiradentes", de Cândido Portinari. Colégio de Cataguases, MG.

Quando eu tinha mais ou menos 13 anos, São José dos Campos abrigou uma edição dos Jogos Abertos do Interior do Estado de São Paulo. O grande evento esportivo daquela edição foi o jogo de basquete entre as cidades de São José dos Campos e Franca (àquela época, base da seleção brasileira).

O jogo aconteceria às 16 horas, bem no meio de nosso período de aula. Interessadíssimos em assistir ao jogo (e em matar um pouquinho de aula também), nossa classe resolveu pedir dispensa após o intervalo à Da. Dorvina, nossa orientadora. Diante da óbvia negativa, decidimos por um levante: durante o intervalo, sairíamos, à revelia, para irmos ao ginásio. Tomaríamos o cuidado de sairmos “de dois em dois” a cada minuto, para não chamarmos atenção do “Seo” Nascimento, que ficava à porta do colégio, vigiando quem entrava e quem saía.

Eu e Marcelo não fomos os líderes ou os idealizadores do movimento. Mas, no sorteio, acabamos tendo o privilégio de sermos a primeira dupla a sair. Os pioneiros da “revolta do basquete”. Resumindo a história: São José dos Campos venceu heroicamente nos últimos segundos. Foi mágico, e eu estava lá! Também sou obrigado a dizer que, já chegando ao ginásio, percebemos que, depois de termos saído, nossos companheiros de insurreição decidiram que seria um ato muito arriscado, abortaram a missão e, no fim das contas, somente Marcelo e eu acabamos punidos com uma suspensão (por parte da escola) e um castigo (por parte de nossos pais).

De lá para cá, guardo uma identificação especial com o dia 21 de abril. Mais especialmente com o representante mais emblemático da Inconfidência Mineira, o Tiradentes. É consenso entre os historiadores modernos que o alferes foi, sim, um dos entusiastas do movimento contra a cobrança dos impostos pela coroa portuguesa. Entretanto, o famoso Joaquim não era exatamente o grande líder do grupo. Por que, então, acabou se transformando no único mártir daquele episódio? Entre outras coisas, porque foi o único que, até o último momento, não negou sua participação e seus interesses. Mal comparando, na hora do “vamos ver”, ficou como eu no episódio dos Jogos Abertos: Tiradentes, vai na frente que eu não vou!

Não vou discorrer sobre os motivos que levaram nosso herói a manter sua posição até o fim – inocência, idealismo, teimosia, falta de noção, síndrome da capa de Caras… Não sei.

Sei da minha história. Não voltei atrás por dois motivos muito concretos. Em primeiro lugar, depois de certa altura, não dava mais para voltar atrás; em segundo lugar, desde cedo eu decidi que, na minha vida, devo arcar com o ônus  das decisões que eu tomar, CQC. Só eu e meu amigo fomos punidos. Em compensação, só nós dois tivemos o privilégio de assistir àquele jogo épico e inesquecível. Valeu a pena? Hoje, eu acho que não faria novamente – mas não sei dizer com certeza. Uma coisa é certa: foi o que fiz, e não vou negar.

Conto essa história para dizer que dou valor àqueles que, mesmo pagando alto preço, assumem seus atos (os erros, inclusive) e encaram suas consequências. Não é qualidade que se vê com muita facilidade nos nossos dias.

No trabalho, por exemplo, gasta-se muito tempo e energia tratando com situações geradas por gente que não assume o que faz ou o que diz. Isso cansa e desgasta muito. Uma energia muito mal empregada, não é mesmo?

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Categorias:gestão, pensando
  1. Regina Celia Martinez
    dezembro 27, 2013 às 3:04 pm

    Adorei seu relato, também ia a quase todos osjogos abertos do interior. Sou do tempo que o Pedro Ives jogava, o Francisco Antonio Molina nadava, e outros mais. Ia ao Campeonatio de Paraquedismo no CTA. São josé dos Campos era uma cidade que curtia esportes. Era muito bom. Saudades

    • lcribeiro
      dezembro 27, 2013 às 8:17 pm

      Muito bom mesmo, Regina!
      Foi bom poder aproveitar tudo aquilo. Eu era feliz e sabia! 😉

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