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O Diabo no divã


Nota: Meu sogro, Frederico Carvalho, é uma figura. O homem, depois de anos servindo como oficial da Aeronáutica, aposentou-se e desandou a escrever. De lá para cá, inscreve seus contos e poesias em concursos literários. Este, que posto hoje, acabou publicado em um livro de antologia de um desses concursos. Li e achei interessante, especialmente porque, vez por outra, culpo o “Coisa-Ruim” por algumas coisas que são de minha completa autoria e responsabilidade. Com vocês,

O Diabo no divã

Não sei o que está acontecendo comigo; talvez devesse consultar um colega ou mesmo um psiquiatra. Toda vez que tenho um intervalo entre um paciente e outro, tenho uma sensação estranha de está sendo observada; mas como observada se não há mais ninguém aqui no consultório! E o pior de tudo é que essa sensação só passou a ocorrer quando mudei o meu atendimento para esse edifício, donde posso ver todos os pavilhões, já desativados, do antigo Centro Psiquiátrico de Barbacena.

A princípio era uma sensação de não estar sozinha, de que havia mais alguém no ambiente… Essa sensação, aos poucos foi se tornando cada vez mais forte e, em dado momento, tive a impressão de que havia alguém deitado no meu divã para uma seção terapêutica. Comecei a ver em flashes, em vislumbres, que havia realmente uma pessoa deitada querendo me falar, dizer algo, expor alguma coisa que aflorava de sua mente.

Era um homem adulto, magro, cabelos ligeiramente grisalhos e cortados baixo. Com o decorrer dos dias, a sensação foi aumentando. Já não aparecia mais momentaneamente; agora, a aparição era nítida e demorava alguns instantes: dois a três segundos. Vestido normalmente: tênis, calça jeans e uma camisa masculina de mangas curtas, com um bolso a esquerda onde havia uma caneta de boa qualidade.

De imediato não dava para que se visse a sua condição social, mas, pela minha intuição feminina, eu diria que era classe média e, como psicóloga, que era classe média alta, como a maioria de meus clientes. Deve ter vindo de carro e deixado-o no estacionamento da esquina. Na mão um molho de chaves, quatro ou cinco delas e, entre elas uma chave de carro da Ford. Qual seria o carro? Um Eco-Esporte, um Ford Fiesta ou um popular Ka.

Não largava as chaves, o que psicologicamente demonstra uma certa insegurança. Já então podíamos vê-lo perfeito e totalmente. Perguntei-lhe:

– O que faz aqui? Como entrou? Tem hora marcada?

– Uma pergunta de cada vez – foi a resposta. Tenho hora marcada.

Corri a minha agenda e vi que realmente estava marcado aquele horário para o senhor “L”. Que significava “L”? Alguém teria marcado, mas a letra era minha. E agora? Além de alucinações, amnésia. Você marca uma hora para um paciente e esquece completamente. Sem essa de escrever apenas a primeira letra do nome! O que significava aquilo?

Parti para a briga:

– Como você me induziu a marcar esta hora? O que você quer?

– Você mesma marcou a hora de terapia, a letra é sua, falou, desta vez virando o rosto e olhando na minha direção.

Quarenta e cinco a cinqüenta anos. Não mais. Olhos parados e frios. Feições duras e angulosas.

– O que significa senhor “L”?

– Se você escreveu “L”, estava se referindo a um de meus nomes. No dicionário de termos chulos tenho, pelo Brasil afora, 12 nomes diferentes. O que não é muito. Para prostituta aparecem 19 nomes: mulher, mulher dama, mulherzinha, zinha, garota de programa, piranha, puta, rampeira… e vai por aí. Homosexual tem 17 sinônimos: viado, “gay”, boiola, baitolo, mulherzinha, chibungo, fruta, fresco… Você deve ter escrito apenas senhor “L” porque, por superstição ou insegurança, não quis escrever o nome todo.

– Espere aí! É você quem vai fazer terapia e não eu! Como se atreve a me tachar de insegura?!

O do divã não se atreveu a responder a esta última pergunta e limitou-se a dizer:

– O “L” que você escreveu deve se referir a Lúcifer, o anjo da luz, uma das doze maneiras como eu sou chamado em português. Não precisa se assustar; como diz o ditado, “o diabo não é tão feio como se pinta”.

Minhas pernas tremiam. Como psicóloga procurei manter a calma e não dar “bandeira”.

– O que você quer?

– Pergunta de resposta óbvia – falou o demo. Se estou aqui, deitado no seu divã,  preciso de apoio e terapia.

– O capeta – usei um de seus diversos nomes – não precisa de terapia.

– Engano seu. Não obstante eu seja um anjo… Destronado, é verdade, pelo criador, mas ainda um anjo, preciso de apoio, carinho, atenção… como todos os homens, e ainda terapia.

– Você sabe que pela ética e pelo Conselho eu posso recusar qualquer paciente.

– Você não fará isto.

Aconteceu um momento de silêncio: trinta segundos, não mais que quinze. Eu arrumava minhas idéias na cabeça, deixava amainar a taquicardia do susto e, como manda a técnica, esperava que ele começasse a falar.

– Comece a falar, minha hora é cara.

-Fui destronado e expulso do paraíso, por causa de uma grande besteira que fiz. Até agora, final do século vinte, começo de um novo milênio, como dizem vocês, pensava em retornar ao domínio do mundo. Fizemos eu e meus comparsas grandes progressos: o sexo se tornou uma coisa banal, o homosexualismo impera, as drogas campeiam, em muitos países o aborto é permitido, há pedofilia até mesmo entre os religiosos… A humanidade se esqueceu das guerras, é verdade, mas optou pela violência urbana. Mas ainda assim Deus está firme no seu trono. Se algum dia eu dominasse, seria tudo muito fácil: como no conto de Machado de Assis, era só pegar todos os livros e onde tivesse escrito “pecado”, escrever “virtude”, e onde estivesse escrito “virtude”, escrever “pecado”… Mas não é isso que me traz aqui. O que me traz aqui é que tudo o que os homens fazem de errado põem a culpa em mim. Eu já não agüento mais! E a vontade pecaminosa dos homens? E a índole má? E a atração pelas coisas ilícitas?

Fez uma ligeira pausa e continuou:

– Os homens vêm cometendo um grande erro atribuindo toda violência à falta de pão. As coisas não são assim. Se fossem assim, as cidades mais violentas não seriam as mais ricas. É tudo bem diferente: o homem sonha com o retorno ao paraíso; ele é violento não para matar, mas sim para morrer. Quando ele mata, ele, na verdade, quer ser morto e retornar a uma situação de paz. Por isso ele tem feito guerras, buscado o cigarro e as drogas, construído barracos em áreas de riscos, dirigido embriagado, poluído e tentado acabar com o próprio planeta. Quer ser morto, repito, e voltar ao paraíso. Por isso o homem é violento.

Fez uma nova parada e concluiu:

– Eu vou deixar bem claro: nada…  tenho… a ver… com tudo isso!!! – falou o mais pausadamente que podia.

Olhou outra vez para a profissional e continuou:

– Desculpe-me, eu precisava desabafar. Há cinco mil anos que trago esse peso sobre as costas.

Eu não sabia o que falar, o que comentar, o que sugerir… Limitei-me a dizer:

– O seu tempo já se esgotou.

E ele desapareceu da mesma maneira que havia surgido havia uma hora atrás. Espere, ele não pagou a terapia! Olhei e vi que, em cima da mesa, havia um cheque especial de um sofisticado banco internacional.

Frederico Carvalho

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Categorias:lendo
  1. dezembro 24, 2012 às 5:09 pm

    posta, mais, mais, mais, pfr………………..

  1. abril 17, 2010 às 11:09 pm
  2. setembro 15, 2010 às 1:13 am
  3. janeiro 17, 2011 às 12:00 am

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