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Escuridão, o que mais me reservas? (*)


Filipe: todo dia, um desafio

Filipe: todo dia, um desafio

Em Novembro de 2007, fiz um “post-jabá” em outro blog, com o título “Escuridão, o que me revelas?“. Escrevi sobre o lançamento de um livro do meu filho, Filipe.

Resumindo a história, a obra era o resultado do processo de aprendizado da escrita Braille, depois que ficou cego aos oito anos de idade. As histórias, que escrevia como exercício de fixação da técnica e da linguagem, foram compiladas e publicadas com o título “O Planeta Animal”.

A comercialização foi restrita apenas aos eventos de lançamento, que organizamos em Campinas e em São José dos Campos, além de uma feira literária em uma escola que ele frequentou até a quarta série do ensino fundamental. Com muitos amigos e conhecidos adquirindo os exemplares, a tiragem foi praticamente esgotada. Ficamos orgulhosos, pois a conquista parecia ser o ápice de uma vida marcada por uma sucessão de dificuldades e superações.

Nas narrativas de filmes, livros e novelas, as histórias param na última cena, na última página, no último capítulo. As coisas ficam, de certa maneira, congeladas e eternizadas. Na vida real, como diria Cazuza, o tempo não para.

Filipe continuou sua luta. Com esforço e dificuldade, concluiu o ensino fundamental em 2008. Ele nunca aprendeu a ler com fluência o dificílimo código Braille, que exige extrema sensibilidade tátil e coordenação motora apurada. Restou-lhe o recurso do áudio: gravações das aulas e de materiais didáticos, além de audio-revistas e audio-livros, obtidos junto a instituições dedicadas a produzir esse tipo de material para deficientes visuais.

Para o ensino médio, a única solução viável foi o Supletivo – um processo essencialmente auto-instrucional, que exige muito mais disciplina e esforço. É bom dizer que ele não recebe tratamento especial por ser portador de “necessidades especiais”. No momento, ele está concluindo o módulo de Literatura, para o qual há extenso conteúdo, incluindo a “leitura” de algumas obras clássicas. Horas e horas concentrado no fone de ouvido. É tarefa das mais árduas.

Hoje, cheguei em casa e recebi a notícia de que ele recebeu duas notas de avaliação: dez em Literatura Geral e nove em “Dom Casmurro” (Machado de Assis), impressionando a nós e também aos avaliadores. Pode parecer pouco. Mas, acredite, não é.

Onde é que esse menino pensa que pode chegar? Sinceramente, não me sinto no direito nem capaz de imaginar.

Muitas vezes, privilegiado que sou em minhas oportunidades e facilidades, me pego com vontade de jogar tudo para o alto. Afinal de contas, a vida é muito dura, não é mesmo?

Durmo hoje pensativo, mas cheio de orgulho e alegria.

(*) Post dedicado a teimosos, inconsequentes, otimistas e sem noção – que seguem em frente, apesar das dificuldades.

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  1. Lya
    agosto 28, 2009 às 10:41 am

    Lupércio,

    A leitura me deixou com lágrima nos olhos. Parece mesmo Deus escolhe pessoas especiais nessa vida e as colocam juntas. O Filipe – e você, a Deo e o Ameba (ainda é Ameba?) – com certeza se encaixam nessa categoria: nas poucas oportunidades que vi vocês juntos, vi vocês completos, se é que você me entende…

    PARABÉNS pra todos. Principalmente ao Filipe, é claro.

    Bjo.

    Lya

  1. maio 20, 2011 às 10:12 am

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