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O que Fernando não viu…


No dia 9 de julho de 1997, um inusitado acidente aeronáutico tirou a vida do meu amigo Fernando.

Naquela época, ele era um dos poucos que ia de um lado para outro armado de traquitanas tecnológicas como notebook e telefone celular. Era um daqueles “geeks” (para mim, era um “novidadeiro”), apaixonado pelas transformações e benefícios que a tecnologia da informação podia trazer para a vida do cidadão comum. Como empresário, além da conceituada empresa de consultoria e integração de sistemas, tinha acabado de montar um dos dois primeiros provedores de acesso à internet da cidade – um pioneiro. Eram tempos em que US Robotics, conexão dial-up, PPP, browser (Netscape era a estrela), html, home page entre outros termos passavam a fazer parte do universo de uma minoria privilegiada e visionária. A Internet estava chegando.

Doze anos se passaram e Fernando não viu a evolução dos aparelhos de telefonia celular (que hoje, entre outras coisas, até fazem ligações telefônicas de voz), não viu que duas e meia entre três mochilas que vemos nas costas de jovens e executivos andando pelas ruas das cidades tem um notebook dentro, nunca viu uma plaquinha de “wifi zone” em um aeroporto ou em uma loja de café espresso. Em compensação, não recebeu milhões de mensagens de spam (que até aquele momento era somente uma marca de presunto estrangeiro) em sua caixa postal de e-mail… entre outras coisas. Fernando não viu muita coisa. Aliás, Fernando nunca ouviu falar de… você não vai acreditar… Google!

Olha, é bom dizer que esse cara foi quem mudou minha vida profissional. Foi quem me tirou da vida modorrenta de um analista de custos em uma indústria em São José dos Campos e me apresentou ao mundo muito legal dos bits, bytes, dos modelos de dados, das aplicações, dos sistemas, das soluções e dos serviços de tecnologia da informação.

Enfim, eu o conheci muito bem e sei que ele ia gostar muito de um monte de coisa que você e eu temos e podemos usar hoje em dia. Ia gostar de frameworks para desenvolvimento e distribuição de aplicações web, do fato de que, aos trancos e barrancos, os sistemas operacionais para uso em computadores pessoais melhoraram muito (inclusive aqueles dos quais a gente gosta de falar mal), ia gostar da facilidade que se tem em encontrar e conversar com alguém do outro lado do mundo, através de um microfone e uma minicâmera de vídeo embutidos no notebook, ia gostar das dezenas, centenas e milhares de meios e ferramentas disponíveis para podermos ensinar às pessoas fazerem melhor o que já fazem ou mesmo aprender algo que elas sequer sonhavam existir. Também acho que ele ia se divertir e fazer muito bom uso da blogosfera, do Twitter, das redes sociais… ia ser um evangelista da Web 2.0. Ah… e também ia querer muito (muito mesmo) ter um Kindle.

Mas eu, sinceramente, tenho lá minhas dúvidas se ele ia gostar de sentir aquela sensação de vazio e aflição quando não está online. O medo de não encontrar ou não ser encontrado. O medo de não saber do que se tratava quando alguém lhe perguntasse “o que você acha do Sistema Operacional do Google?”. Acho que Fernando não viu e não ia fazer questão de ver que nós estamos exigindo (de maneira quase histérica) cada vez mais de nossos pares, chefes, subordinados, amigos e familiares que eles se mantenham encontráveis e disponíveis o tempo todo. Para falar a verdade, se ficarmos pensando aqui mais um tempo, acho que você e eu vamos achar mais algumas coisas das quais Fernando não iria gostar.

Ah… eu acho que o Fernando não viu muitas coisas das quais ele teria gostado. Mas eu tenho certeza de que ele não viu muitas coisas sobre as quais teria me dito com aquela sabedoria das pessoas que enxergam longe: “Sei não, Laercinho, estou sentindo que isso não vai acabar bem…”

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Categorias:pensando
  1. julho 9, 2009 às 2:56 am

    É…
    já passou mais de uma década do acidente, mas é interessante ver como nessa década muita coisa mudou.
    É interessante ver, também, que muita coisa permanece igual, e acredito que essas coisas devem ser preservadas enquando ainda podemos preservar!
    NÃO! não estou falando da amazonia, do verde… nem dá agua (né?)
    falo das relações que temos, o pouco contato pessoal que temos com outras pessoas!
    as coisas que hoje parecem ser banais e simples… não são!
    lutou-se anos pra termos alguns direitos… e durou menos tempo pra que a sociedade desistisse desses direitos!
    Hoje podemos escolher nossa esposa/marido… mas ao invés disso, o que vemos é uma série de pessoas escolhendo alguém para ser a mãe dos filhos… e escolhendo outraS pra ser a parceira de alegrias, outras pras tristezas… estamos caminhando pra uma era que o contato intimo com alguém não existe… afinal, o intimo deixou de ser intimo, é praticamente publico!

  2. lcribeiro
    julho 9, 2009 às 3:06 am

    é… afinal de contas, tudo está muito fácil e ao alcance das mãos. não gostou, é só trocar.

  3. julho 16, 2009 às 12:01 pm

    Excelente post, incrível como as coisas mudam rápido, pior vai ser meu filho dizer, meu pai é um velho, gosta de twitter e iphone hahahaha Ainda nem tenho filho, mas o que será novidade pra ele, ja imaginou ??
    Abraço e continua blogando cara!

  4. Heloisa
    julho 10, 2010 às 1:02 pm

    …eu tenho a impressão que você está coberto de razão. Exigimos respostas mais rápidas a cada dia. E me lembrei agora “daquele mensageiro” que chegou atrasado apenas poucos minutos e Romeu e Julieta morreram de verdade. Já pensou, se Shakespeare vivesse na nossa época?…

    • lcribeiro
      julho 10, 2010 às 8:01 pm

      hahaha!
      se Romeu e Julieta vivessem em nossa época, alguém já teria twittado… mas não para impedir a morte, e sim para postar as fotos do casal morto.

  5. Heloisa
    agosto 26, 2015 às 11:56 pm

    piorrrr….hahhaahahaha!!!!

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