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Sucesso = f(Expectativa, Qualidade, Ganhos)

janeiro 18, 2012 3 comentários

Há algum tempo, postei aqui o artigo Era uma vez, um berço usado. Ao final do texto, prometi que haveria um próximo capítulo – que, à época, já estava escrito. Por algum motivo, procrastinei tanto sua publicação, que acabei me esquecendo. Bom… antes tarde do que nunca. Ei-lo!

Ferramentas para garantir que Expectativa, Qualidade e Ganhos cooperem para o Sucesso.

O artigo (Era uma vez… Um berço usado), apresenta o sucesso como sendo o resultado de uma função de três variáveis: Expectativa, Qualidade e Ganhos.

Enfim… Mãos à obra.
O Contrato de Outsourcing de TI foi assinado. Muito critério na escolha do fornecedor – que traz consigo todos os selos de qualidade e certificações que o mercado exige.
No entanto, já se passaram dias, semanas, meses. E até agora, não entrou pela porta da empresa a Turma do Casseta e Planeta, abrindo a maleta de utilidades, com um produto milagroso para cada situação, dizendo “Seus Problemas Acabaram!”.
É cada vez mais forte a suspeita de que eles não vão aparecer…
Segundo Dr. Paul Roehrig, do “Forrester Research”, instituto independente de pesquisas de mercado e de tecnologia, aproximadamente 57% dos empresários que contratam Serviços de Outsourcing de TI estão razoavelmente satisfeitos, enquanto 22% estão bastante satisfeitos.
Isso quer dizer que que tem muita gente satisfeita. Em contrapartida, há um contingente de mais de 20% de insatisfeitos!

Será que toda essa gente insatisfeita é incapaz ou azarada? Pior… Será que eu sou um destes escolhidos? Nem uma coisa, nem outra.
Fazer com que Expectativa, Qualidade e Ganhos cooperem para o Sucesso é tarefa que exige disciplina, determinação, trabalho e método.
A seguir, algumas reflexões sobre cada uma destas variáveis.

A Expectativa
Saber o que esperar é fundamental. Grande parte das frustrações seriam evitadas se houvesse expectativas mais alinhadas com o que é, de fato, real. Isso em qualquer área da vida… E muito mais no mundo dos negócios!

O que mais aproxima sonhos de uma realidade palpável e mensurável é um Plano – claro e definido.

Em uma frase, o Plano é “o que permite ir em direção ao FUTURO, sem se esquecer do PASSADO, cuidando do PRESENTE”.

A Qualidade
O Plano é a expressão da Expectativa. Mas quantos sonhos e planos já não sucumbiram à realidade do dia-a-dia?

Desta forma, é imperativo que a execução seja realmente eficaz, e concretize o que se espera do Plano. No mundo dos negócios, não há palavra que dê mais legitimidade à execução do que Qualidade!

Qualidade não é algo subjetivo e passível de interpretação doutrinário-religiosa, como os menos avisados podem pensar (Qualidade – Bom Senso ou Padronização?).

Três ferramentas são importantes para garantir uma execução com Qualidade: Gestão de Projeto, o Modelo de Excelência Operacional e Auditoria Interna.

Gestão de Projeto
É aquilo que transforma o Plano em equipes de trabalho, grupos de atividades, “milestones”, datas, dependências, custos, responsáveis, patrocinadores e itens de entrega. Ou seja: traz o Plano do reino das idéias para o dia-a-dia da empresa.

Boas Práticas de Gestão de Projetos (como aquelas apresentadas no PMBOK, do Project Management Institute) são um excelente modelo para a empresa que está determinada a ter uma execução de Qualidade.

Modelo de Excelência Operacional
É a parte da execução que, paralelamente ao esforço de projeto, toma conta do “patinho feio” da gestão: o dia-a-dia, o cotidiano.
Sim. Precisa ter alguém olhando para o que acontece por ali.

Modelos de Excelência Operacional (Gestão de Processos, Qualidade e Melhoria Contínua) são capazes de revelar os pontos da operação que estão drenando recursos pelo ralo, muitas vezes carregando um bom punhado de dinheiro, e a carreira de muito gestor bem-intencionado. A notícia boa é que podem também apontar para pequenos ajustes que podem fazer uma grande diferença!

Auditoria Interna
Parar para fazer olhar-se no espelho e ver se as ações estão de acordo com o que se prometeu, agir exige disciplina, coragem e humildade.

Neste sentido, o modelo de Auditoria Interna aparece como uma excelente ferramenta para a empresa que está trabalhando sinceramente para obter sucesso. E não é preciso estar às portas de alguma auditoria para renovação do Certificado ISO para trazer a figura da Auditoria Interna para o palco. Auditoria Interna periódica deve ser um “estilo de vida”.

Os Ganhos
Ora… se não é a variável mais relevante do sucesso, é certamente a que sai mais na foto. Do lado desta variável, todo mundo quer aparecer!

A má notícia é que os Ganhos não acontecem sem esforço e, muito menos, por acaso. São fruto de uma Abordagem Factual disciplinada, de Revisão constante e de… Comunicação, Comunicação, Comunicação!

Abordagem Factual
Se você não é o CEO, o COO, o Presidente, o acionista, pense como um deles: Por quanto tempo você consegue sustentar que “melhorias” não precisam causar impacto concreto em Rentabilidade, ROI, EBITDA, ou qualquer que seja a sigla usada para medir sua gestão?

Revisão
Neste capítulo, há muito o que falar, mas vamos dar somente um exemplo:

Olhe para o Plano e para a Qualidade – sempre! Ao mesmo tempo, olhando para o Cliente, pergunte-se se ele está percebendo claramente a melhoria.

Humildade para implementar uma mentalidade constante de Revisão faz bem aos dentes.

Comunicação, Comunicação, Comunicação!
Parece óbvio, parece um clichê, parece somente uma conclusão motivacional para um artigo extenso. Pode ser, mas reflita assim mesmo:

  • Comunicar para compartilhar desafios e objetivos – e conquistar parceiros e aliados na empreitada.
  • Comunicar para mostrar consideração – com aqueles que compartilharam sonhos e dificuldades.
  • Comunicar para celebrar cada conquista, cada resultado positivo alcançado!

Conclusão
Bom… Com um mínimo de bom senso, alguém vai dizer: Mas, então, o Sucesso em Outsourcing de TI depende de toda essa engrenagem?

Como garantir que o fornecedor (ou os fornecedores) de Outsourcing de TI cumpra cabalmente os objetivos estabelecidos, e sua empresa tenha sucesso?

Neste momento, entra em cena a Gestão de Outsourcing. Assunto para o próximo artigo!

Categoriasgestão, projetos

Era uma vez… um berço usado

maio 10, 2011 3 comentários

Revisando algumas coisas que já escrevi, achei este artigo – postado no site da Logiko. Apesar da “antiguidade”, entendo que esta série ainda serve para nossos dias.

Era uma vez… João e Maria.

Essa história, todos conhecem: Passeavam todo dia pela floresta até que, um dia, perderam-se e acabaram presos na casa de uma bruxa malvada, que tinha intenção de dar uma churrascada para a turma da faculdade, assando a carne macia das crianças. Graças ao autor da história, a coisa desenrola-se de tal maneira que, no fim das contas, a bruxa morre de forma horrível (como bruxas malvadas devem morrer) e João e Maria voltam para a casa – felizes.

O que pouca gente sabe é o que aconteceu depois daquele episódio. Pois bem… Os anos passaram para João e Maria, como passam para qualquer pessoa.
João foi para a faculdade. Cursou Engenharia de Processos, mas gostava mesmo é de muito dinheiro, e acabou virando “lobista”. Casou-se com Clara e teve dois filhos, vivendo uma vida confortável.
Maria, que era mais nova, casou-se um pouco mais tarde, com Eduardo, seu colega de classe na faculdade de Ciências Sociais. Como cientistas sociais, passaram a viver aquela vida simples e honesta, desapegada das grandes ambições consumistas.
Quando Maria ficou grávida do seu primeiro filho, em vista do orçamento apertado, decidiram que a melhor opção seria comprar de João o berço usado (afinal de contas, os meninos já estavam grandes, e o berço estava desmontado e encostado num canto da casa).
Depois de uma certa discussão, Eduardo e Maria compraram o berço em três cheques – para o dia 15 de cada mês.

Olha… Tenho um amigo que, quando vê algo com o quê ninguém está contente, diz: “isso é igual a venda de berço usado; comprador e vendedor sentem que foram lesados”.

No fim, João sai praguejando contra a mesquinhez e falta de sensibilidade de Eduardo, que reclamou do preço, e ficou pechinchando para comprar aquele que tinha sido o berço que embalou as noites de dois filhos lindos.
De outro lado, Eduardo sai resmungando com Maria sobre a cara-de-pau e coragem de João, por cobrar tudo aquilo por um berço riscado, com as juntas frouxas e com aquele colchão cheirando a urina…
E foram infelizes para sempre!

Esse tipo de coisa é mais comum do que se pensa, e não é muito diferente no mundo corporativo. Histórias como essa acontecem com certa frequência, e mostram quão frustantes e estressantes podem ser relacionamentos comerciais. Muitas vezes, o que é celebrado com um lauto almoço em um restaurante chique, termina (ou, pior, arrasta-se inacabado) com sentimentos profundos de rancor.

Há ainda fatores complicadores. Transações simples de compra e venda são muito menos arriscadas do que um “Contrato de Prestação de Serviços de Outsourcing de Tecnologia da Informação.” Contratos de Prestação de Serviços de Outsourcing deTecnologia da Informação acumulam potenciais de problemas, em – digamos – progressão geométrica. Vejamos:

  • Contrato de Prestação de Serviços – Representa um relacionamento mais longo. Quer dizer que, para desistir de um negócio destes, as partes vão ter de executar as cláusulas de rescisão e multa, sempre dolorosas.
  • Outsourcing – Define algo sobre o que já se fazia internamente e, por algum motivo, às vezes, não totalmente claro, decide-se que vai ser feito por alguém de fora, que não conhece o contratante e o seu jeito de fazer as coisas.
  • Tecnologia da Informação – Gente de Tecnologia da Informação é, às vezes, arrogante, impaciente com a ignorância alheia e, pior, tem prazer mórbido em usar siglas e termos em Inglês (UML, PMI, COBIT, ITIL, Java, ERP, “bug!” etc.) nas conversas e discussões. Uma caixa preta de Pandora, de onde podem sair monstros e males inimagináveis.

Assim, ouso dizer que “Contratos de Prestação de Serviços de Tecnologia da Informação” só são menos perigosos do que “compras de berços usados”!

Como, então, sair ileso desse mundo de armadilhas e perigos?

No caso do berço, por exemplo, percebe-se que a frustração Eduardo e Maria estava diretamente ligada com o fato de ser um artigo usado, com a qualidade típica de um artigo usado, obviamente diferente do que esperavam. Em contrapartida, não tinham dinheiro para comprar um berço novo. João, no papel de vendedor, limitou-se a dizer que “estava em perfeito estado de conservação” (para um berço usado, claro).

Assim, em primeiro lugar, devemos ter em mente que a percepção do sucesso de qualquer empreitada é o resultado de uma função com três variáveis distintas: a Expectativa, a Qualidade e os Ganhos. Como recurso mnemônico, sugiro representá-la com notação matemática:

Sucesso = f(Expectativa, Qualidade, Ganhos)

Como, então, garantir que Expectativa, Qualidade e Ganhos cooperem para a máxima percepção do Sucesso? Isso é o que veremos no próximo artigo da série.

Sobre contratos de trabalho

abril 11, 2011 4 comentários

O livro do Gênesis, a partir do capítulo 40, conta a história de um homem chamado José: Levado inicialmente como escravo para o Egito, acabou ganhando a confiança de Potifar, seu senhor, que o estabeleceu como administrador de sua casa.

Inteligente, competente, com uma carreira promissora, não demorou muito para chamar a atenção da esposa do patrão. Mais de uma vez, a patroa serelepe partiu para cima do escravo galã, cheia de más intenções.

Ao assédio sexual, José declara-se consciente da confiança que seu amo lhe devotava, mas completa com uma frase emblemática e reveladora:

Ninguém há maior do que eu nesta casa, e nenhuma coisa (Potifar) me vedou, senão a ti, porquanto tu és sua mulher; como pois faria eu tamanha maldade, e pecaria contra Deus?

Sem o apoio de uma Lei Trabalhista ou da CUE (Central Única dos Escravos), a corda acabou arrebentando para o lado mais fraco. Vítima de uma intriga armada pela mulher rejeitada, nosso herói foi parar na cadeia.

O que me chamou à atenção na resposta de José foi que, apesar de sua condição de escravo submisso e leal a Potifar, ele deixou claro que seu contrato principal era com seu Deus.

Ouso dizer que, mesmo que você não seja religioso ou não compartilhe do mesmo compromisso de José com Deus, é muito provável que, no fundo, o seu contrato de trabalho também não seja com aquele com quem você tem vínculo de emprego ou um acordo de prestação de serviços. Mais do que a responsabilidade para com aquele que remunera seus serviços (seja com salário, seja com o pagamento de uma fatura), no fim do dia, você tem uma prestação de contas consigo mesmo.

Dizem que “o que os olhos não vêem, o coração não sente”. No mundo corporativo, esse ditado é parafraseado com “o que a contabilidade não vê, o bolso do patrão não sente”.

Mas para os bons profissionais, isso não faz diferença. Independentemente das conseqüências, recusam-se a trair seus princípios e não admitem fazer menos do que o que é correto e íntegro.

As empresas precisam de pessoas para as quais um contrato escrito em um pedaço de papel não seja a única garantia de um trabalho honestamente bem feito. Isso faz toda a diferença, porque durante o dia são várias as oportunidades de (aparentemente) pequenas e inofensivas traições.

Enfim, que tipo de profissionais nós temos sido? À noite, quando colocamos a cabeça sobre nossos travesseiros, que tipo de sono conseguimos ter?

Vamos dormir pensando nisso, ok?

Tartarugas mutantes no ambiente corporativo – um mito

fevereiro 11, 2011 10 comentários

Este post foi inspirado em um tweet do meu amigo @FabioLCSilva

Na minha terra, quando alguém deixa acontecer algo que poderia ter sido facilmente evitado, dizemos que aquela pessoa deixou a tartaruga(*) escapar.

Pois hoje eu quero falar sobre o mito das tartarugas mutantes no ambiente corporativo.

Porque é incrível como, ainda hoje nas empresas, com centenas de ferramentas de produtividade, de comunicação e de colaboração, vez por outra, vemos uma tartaruga que logrou fugir do seu cercadinho.

O caso recente da Brastemp é típico. Um cliente que teve um problema com a sua geladeira passou por uma sucessão de pequenos equívocos no atendimento ao consumidor, na assistência técnica, na área comercial…  Resumindo, quando se deu conta, o consumidor se viu num tremendo imbróglio com a fábrica: gastou horas em dezenas de vezes ao telefone com o serviço de atendimento ao consumidor; recebeu visita de técnicos e até chegou a desembolsar dinheiro em um acordo para comprar um modelo mais novo da marca. O tempo passou, e o problema se arrastou por mais de seis meses – período em que o consumidor ficou sem geladeira em casa. O caso foi parar nas redes sociais (Youtube, Twitter, Facebook), e a imagem daquela empresa tão tradicional e conceituada acabou irremediavelmente arranhada.

De hoje em diante, sempre vai ter alguém para dizer que “a Brastemp não é assim uma Brastemp”.

Esse é um caso típico de uma tartaruga que fugiu por entre os dedos das pessoas que estavam tomando conta dela. Um foi deixando para o outro, que pensou que um terceiro estava olhando, que pensou…

Na busca por entender o que pode ter acontecido a uma empresa séria e com uma estrutura desenhada para atender clientes e garantir a qualidade do seu produto, alguém pode achar que tratava-se de uma tartaruga mutante – com poderes especiais. Infelizmente, a realidade é que elas não existem.

As tartarugas que escapam no ambiente corporativo são aquelas mesmas que nós conhecemos. Cascudas, preguiçosas e lerdas.

Então, como elas escapam?

Eu penso que escapam porque, nas nossas estruturas, tem gente mais cascuda, mais preguiçosa, e mais lerda do que o mais lerdo dos répteis testudíneos.

Essas pessoas são aquelas que não estão interessadas em fazer mais do que o seu trabalhinho medíocre, chegar no seu horário, bater o seu ponto, marcar sua presença no escritório.

  • Aquele relatório financeiro que tem aquela pequena diferença… ah… não faz mal.
  • Aquele programa de computador com aquele código acochambrado, que não trata aquelas condições que, afinal de contas, dificilmente vão acontecer… ah… um dia, eu dou uma melhoradinha nele.
  • Aquela rotina operacional, que se faz mecanicamente, que gera relatórios com toneladas de páginas e que são enviadas para alguém que não lê uma linha sequer; aquele trabalho, que poderia ser feito de forma mais eficaz e produtiva, mas ninguém pediu para fazer diferente… não sou eu quem vou ficar arrumando sarna para me coçar.

Bom… quem tem um mínimo de experiência sabe  que, um dia, o acúmulo de pequenas diferenças podem causar um grande rombo nas contas da empresa. Um dia, aquele programa encontra uma condição que não consegue tratar e para na hora errada ou, pior, dá um resultado incorreto, levando a uma tomada de decisão equivocada. Um dia, aquele problema daquele cliente, que poderia ter sido resolvido com meio quilo de atenção, transforma-se em um caso que vai parar na mídia.

Pronto! O executivo sai urrando pela empresa, querendo saber quem deixou a tartaruga escapar. Qualquer explicação parece uma desculpa esfarrapada. Nesse momento, como último recurso, alguém tenta fazer as pessoas acreditarem que aquela tartaruga era ninja e saiu voando sem que alguém fosse capaz de detê-la.

Tarde demais. O estrago já terá sido feito.

Já passei por isso (sim, deixei algumas escaparem) e não foi nada legal.

Se você, por acaso, em algum momento da sua semana ou do seu dia, age como aqueles que deixam tartarugas escaparem, pense um pouco. Você não vai querer que aquela cascuda, de quem você toma conta, dê aquela voltinha enquanto você não está olhando e, do nada, apareça grávida.

Ninguém vai acreditar que ela tem super poderes. Até porque, todos sabemos que ela não tem.

(*) Na verdade, o correto seria dizer “jabotis mutantes”. As tartarugas são espécimes (da mesma família) aquáticos, que movem-se agilmente pelas águas marítimas (os cágados são de água doce). Mas, popularmente, o termo tartaruga é usado para descrever todos esses répteis de maneira genérica.

A perigosa arte de caxanguear

janeiro 4, 2011 2 comentários

Quando criança, aprendi uma cantiga de roda. Era mais ou menos assim

Escravos de Jó jogavam caxangá
Tira, bota deixa ficar
Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue za

Pessoas em volta de uma mesa, cada um com um objeto (geralmente, um copo) na mão. Ao ritmo dos versos cantados, os jogadores ficavam trocando as peças com vizinho do lado. Quem errava na troca (passando na hora que não é para passar ou passando para o lado errado) era eliminado da brincadeira.

Em algum momento da minha infância, por alguma razão que desconheço alguém me disse que era “coisa feia”. Como não gostava mesmo de brincadeiras de roda, nunca mais cantei.

Mas do objetivo e da dinâmica do jogo eu não me esqueci: passar sempre e rapidamente, para o vizinho mais próximo, do jeito certo, o que viesse à mão.

Olhando para a história, percebo que o conceito por trás desse costume confunde-se com os primórdios da humanidade. No Éden, quando questionado sobre o que ficou conhecido como “o pecado original”, Adão foi logo respondendo que “a culpa foi dessa mulher que o Senhor me deu” – demonstrando talento nato para o caxangueado.

Desde então, aquilo que começou como uma prática de auto presevação ganhou adeptos no mundo inteiro e através dos tempos, tornando-se dos esportes com maior número de praticantes no planeta, nos mais variados ambientes – familiar, político, esportivo etc.

Entretanto, dia desses, me dei conta de que “Escravos de Jó” encontrou no ambiente de trabalho as condições mais adequadas para sua difusão. Desde o mais inocente e inexperiente estagiário (que, como se sabe, “não é gente”) até o mais graduado e tarimbado executivo, essa é a mais nobre arte, na qual todos devem empenhar seus melhores esforços para a prática proficiente – passando para o outro qualquer coisa que lhe seja atribuída como responsabilidade. Muitas vezes, resolver o problema não é o mais importante. Eximir-se da culpa é que é o segredo do sucesso.

Nos últimos anos, com a ajuda da tecnologia, os caxangueadores foram munidos de ferramentas poderosíssimas para aumento de sua performance. O melhor exemplo é o “email longo, com extensas justificativas e questionamentos técnicos – enviado com cópia para todo mundo, com aviso de leitura”. Simples e traiçoeiro, ele é a arma mais comum e eficiente para passar para o próximo algo que está na sua mão – tanto que até a comissão anti dopagem da FICA (Fédération Internationale de Caxangueado Association) já está de olho no uso abusivo desse subterfúgio.

Há aqueles que, contra a maré, esforçam-se para estancar a expansão do caxangueado. O presidente americano Harry Truman mantinha sobre sua mesa de trabalho uma placa com a frase “the bucket stops here” – em clara afronta aos amantes da arte de caxanguear.

Sinceramente, esforço-me em fazer parte da resistência a essa prática perniciosa. É coisa que exige determinação e concentração – porque você e eu sabemos que, muitas vezes, é mais fácil render-se à tentação de “tirar, por e deixar ficar”.

Olha… pensando bem, acho que quem me disse que brincar de “Escravos de Jó” era coisa feia não estava tão errado assim.

Pense nisso antes de entrar na próxima reunião ou enviar seu próximo email. ;-)

Instinto animal, instinto humano

novembro 5, 2010 5 comentários

Dizem que o mundo corporativo é uma selva. Eu mesmo já escrevi alguma coisa usando essa alegoria.

Entretanto, há algo no mundo corporativo que pouco tem a ver com a natureza selvagem. É o que chamo de instinto humano. Movido por seu instinto, o ser humano, mesmo quando não há necessidade ou ameaça objetiva pode ser malvado, traiçoeiro, fazer as coisas pelo simples prazer de prejudicar o outro. O instinto humano pode ser motor de associações escusas para derrubar alguém por razões subjetivas, questionáveis e imprevisíveis.

O instinto animal é diferente.

Meu cachorro e seu apetite são de uma sinceridade e clareza de propósitos constrangedores. Quando ele me vê com um sanduíche na mão, uma fatia de pizza, um bife, não faz a menor cerimônia – larga o que estiver fazendo, chega ao meu lado, fixa os olhos no comestível e faz aquela cara de cachorro maltratado e carente. Parece que me diz: “meu mundo por esse bocado de comida que está na sua mão!”.

Igualmente, o leão, conhecido como o rei dos animais, não hesita em deixar claro seus objetivos e anseios. Você duvida disso?

Finalmente, a cobra, tantas vezes injustiçada em nossas rodinhas de trabalho (“aquela ali é uma cobra!”) só faz seguir seu instinto de preservação – agredindo quando se sente ameaçada ou atacando quando necessita de alimento. Você pode confiar que, da cobra, é isso que você vai ter – cedo ou tarde. Em certos casos, seria melhor mesmo nos referirmos àquele em quem não se pode confiar como “aquilo ali é uma pessoa”.

O animal, quando bajula, está movido de segundas intenções. Ao contrário do homem, que pode ter ter terceiras, quartas e quintas intenções.

É claro que é muito provável que o instinto humano seja tão complexo e cheio de variáveis que não caiba na simplicidade com que os animais irracionais encaram sua existência. Pode ser. Mas o fato é que a selva de pedra é,  algumas vezes, mais hostil e amedrontadora do que a mais densa floresta.

O perigo das contaminações no ambiente corporativo

novembro 5, 2010 Deixe um comentário

Quando alguém é promovido no trabalho, costumo dizer que ele “ascendeu na cadeia alimentar”. No ambiente corporativo, quanto mais próximo se está ao poder, maiores são os privilégios e as oportunidades de se obter alimentos para subsistência.

Falando em cadeias alimentares, li recentemente um artigo na Deutsche Welle, sobre um fenômeno que está acontecendo com os ursos brancos na região do pólo Norte, ameaçados de extinção devido à exposição a lixo tóxico derramado nas águas geladas do oceano Ártico. A certa altura do artigo, o repórter escreve que esses animais são os mais ameaçados pela contaminação exatamente por estarem no topo da cadeia alimentar daquele ecossistema. O autor resume a situação em uma frase:

Quanto mais alto você está na cadeia alimentar, maior é seu risco de contaminação.

A frase me chamou à atenção. Ursos polares são os primeiros a terem contato com substâncias nocivas e são contaminados. Da mesma forma, aqueles que, no ambiente corporativo, têm posição de liderança, (coordenação, gerência, direção, presidência), correm sérios riscos de intoxicação por venenos corporativos como:

  • Sensação de Poder – É comum vermos alguém que não estava preparado para ser colocado em posição de liderança e acreditar ter sido, enfim, reconhecido em sua superioridade. Daí em diante, acreditar que seja onisciente, onipresente e onipotente é um pulinho. Cedo ou tarde, descobre que esses são atributos exclusivos da natureza de Deus. Às vezes, descobre também que o mundo dá voltas, e que, um dia, aquele que era seu subordinado, pode se tornar seu superior. Nesses casos, a morte é certa e dolorosa.
  • Sensação de Impotência – Há também aquele que, ao primeiro contato com a realidade dos problemas (aqueles dos quais não fazia idéia, quando era apenas uma foca), sente-se inapto para dar conta de tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. A conseqüência mais perigosa desse envenenamento é uma paralisia nervosa. Os danos causados por essa falta de ação em momentos críticos podem trazer prejuízos em várias dimensões (desde clima organizacional até valores negativos no demonstrativo de resultados). Em situações como essa, é comum o animal não resistir e ter de ser sacrificado, antes que os prejuízos e contaminações sejam maiores.
  • Sensação Neurótica de Responsabilidade – Quem ingere esse tipo de veneno, tem uma sensação de culpa desproporcional àquela que lhe deveria ser efetivamente atribuída. É claro que o gestor deve ter a consciência de que, a responsabilidade (e os méritos) passa sempre por suas mãos. Entretanto, é  exagerado achar que toda a responsabilidade e toda solução só pode vir através da sua intervenção. Um gestor que prova dessa poção aparentemente nobre, mas de efeitos deletérios, pode cometer o erro de não compartilhar os problemas com seus pares e suas equipes. Torna-se líder neurótico e centralizador, também vulnerável ao próximo veneno.
  • Sensação de Solidão – O veneno do isolamento é daqueles que intoxica sem que o paciente perceba o que está acontecendo. Esse tipo de contaminação degenera os relacionamentos e as funções vitais do paciente. Morte agonizante é o prognóstico mais provável.

Finalmente, uma das coisas mais cruéis no envenenamento corporativo é que as poções maléficas dificilmente são ingeridas isoladamente. Em várias situações, uma droga leva à outra.

Em casos extremos, o paciente vai perdendo suas funções vitais e torna-se totalmente vulnerável ao golpe de misericórdia para líderes e executivos: a crença em soluções imediatas, urgentes e milagrosas. Isso raramente existe.

O tratamento para desintoxicação de um organismo tomado por esse lixo é lento, baseado em dieta com muita humildade, cautela e caldo de galinha (*) – o que toma tempo.

Se você é um desses ou conhece alguém que teve contato com alguma desses agentes nocivos, saiba que pode haver tempo de reverter o quadro. Mas é preciso agir com rapidez e muita força de vontade – antes que seja tarde.

(*) Caldo de galinha, neste caso, é o básico trivial – sem estripulias ou invenções.

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Uma certa segunda-feira na repartição

setembro 14, 2010 Deixe um comentário

Para Rômulo, seria uma segunda-feira daquelas.

Na véspera, seu Palmeiras tinha levado uma surra de um a zero do Corinthians (entre esses dois times, qualquer “meio a zero” é uma goleada). E nosso heroi tinha de ir trabalhar. Nessas horas, não aparece um Deputado (cambada de gente que não pensa na dor do povo) para propor um projeto de lei que estabeleça ponto facultativo a torcedores de times derrotados na rodada passada do campeonato.

Marília, corintiana, respirava ofegante na porta da repartição. Aguardava o grande momento em que seu colega de trabalho chegaria – com o rabo entre as pernas, como cão medroso. O dia prometia ser glorioso, pródigo em piadinhas e gozações na “porcada”. E Rômulo era daqueles de quem dava gosto tirar uma casquinha.

Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo: Rômulo entra no gabinete. Mal coloca os pés na sala e é recebido por Marília, aos brados:

- Ahá! Porco imundo e fedorento! Tomou, papudo! Um a zero ficou barato para aquele timinho semvergonha!

Rômulo sente o golpe, mas não demonstra. Em esforço de interpretação, responde com a serenidade dos profissionais:

- Só tem direito a caçoar do meu time quem, no mínimo, sabe com quantos jogadores um time de futebol começa jogando.
- E você acha que não sei? Onze!
- Onze??? Responde Rômulo com cara de escândalo.
- D-d-d-dez? Chuta Marília, já com a voz trêmula.
- Dez??? Agora, Rômulo parece ter três metros de altura, e cinco de largura.
Em tentativa desesperada e já sem nenhuma convicção, Marília solta baixinho: – seriam doze?
- Ahh! Vê se vai aprender um pouco de futebol para depois vir falar comigo! Passe bem!

E sai vitorioso, cabeça altiva e passos resolutos. Marília fica encolhida em um canto, envergonhada sob olhares desaprovadores dos colegas de trabalho. Mais tarde, acha no Wikipédia a resposta certa – mas, àquela altura, Inês já estava a sete palmos debaixo da terra.

Moral da história: na vida, prepare-se sempre e procure ter certeza das coisas antes de entrar em uma discussão. Caso contrário, na hora da verdade, você pode fraquejar ao primeiro blefe. Pode ser a diferença entre a vitória merecida ou a derrota dolorida e vergonhosa.

E você sabe que, muitas vezes, o que está em jogo é muito mais do que a posição do seu time no campeonato.

(*) Rômulo  e Marília são nomes fictícios. Mas se você os conhece, sabe que qualquer semelhança com fatos não é mera coincidência.

Tecla DEL – aprecie com moderação

agosto 27, 2010 3 comentários

Dia desses, eu estava escutando um episódio de Think, um programa de entrevistas de uma rádio texana chamada Kera.

O entrevistado do dia é o Dr. Julian Seifter, médico que escreveu um livro chamado After the Diagnosis: Transcending Chronic Illness , sobre sua experiência em tratamento e acompanhamento de pessoas portadoras de doenças crônicas. Ele mesmo conhece o outro lado da moeda, pois sofre de diabetes Tipo I.

O papo todo é bastante bom. A certa altura da conversa, Dr. Seifter fala sobre uma das maiores dificuldades enfrentadas após o diagnóstico: A de que a vida vai ser diferente dali para frente, pois algumas coisas não podem ser mudadas.

Essa realidade bate de frente com um dos pilares da sociedade pós moderna: a tecla DEL. Frequentemente, ela nos possibilita, muito facilmente, apagar algo que deu errado para poder recomeçar do zero – uma, duas, várias vezes.

A cultura do “errou, apaga e faz de novo” cria o ambiente favorável para aqueles que precisam assumir desafios – e tanto a vida moderna, quanto o mercado e as relações de trabalho estão cada vez mais competitivas e arriscadas. Ao mesmo tempo, acreditar que qualquer coisa pode ser removida de acordo com nossa conveniência é inocência e irresponsabilidade.

Aquele que dirige embriagado, causa um acidente e tira a vida de alguém não pode, simplesmente, apagar os fatos como se fossem um episódio sem graça de seriado que baixou na internet. Da mesma forma, está enganado aquele que prefere ignorar, ir contra ou mesmo se negar a acreditar que as coisas mudaram à sua volta – e que vai ter de aprender a fazer as coisas de maneira diferente do que vinha fazendo há anos.

Enfim, é claro que a tecla DEL pode ser nossa grande aliada. Mas exageros devem ser evitados – como em tudo na vida.

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Qual é o seu idioma?

julho 15, 2010 2 comentários

Candidato à Presidência da República em 1994, Fernando Henrique Cardoso carregava a fama de intelectual esnobe e enfrentava rejeição por parte do eleitorado. Intelectual com vários títulos acadêmicos, dono de um vocabulário mais vasto do que a maioria da população brasileira, era normal que as pessoas encarassem suas frases e discursos como peças de difícil assimilação. Sabedor disso, em campanha pelo Nordeste do país, deu uma guinada na imagem de professor engomadinho: em Delmiro Gouveia (AL), vestiu um chapéu de couro e montou em um jegue; em Petrolina (PE), encarou um prato de buchada de bode e, no melhor estilo popular, “lambeu os beiços”. Daquele momento em diante, as coisas mudaram e ele conquistou seus dois mandatos de Presidente.

Recentemente, a Presidenta da Argentina, Cristina Kirchner fez uma declaração que alguns consideraram muito infeliz, dizendo que “é mais gratificante comer um porquinho do que tomar Viagra”. Ao contrário do que se podia esperar, o povo passou a se identificar de maneira muito mais intensa com ela. Desde então, a hermana passou a rechear seus discursos e declarações com referências mais próximas do cotidiano popular.

Não podemos nos esquecer do Presidente Lula, um dos grandes expoentes da comunicação popular deste início de Século XXI. Não importa muito se você e eu concordamos com as opiniões dele; o fato é que, com suas analogias futebolísticas (comprovadamente, o esporte mais popular do planeta), ele tem sido muito claro no que diz pelo mundo.

Nos meios de comunicação, é impressionante o poder de comunicação de pessoas como Sílvio Santos e R.R. Soares (com este último, convivo diariamente e sou testemunha do talento inegável). Transmitem de maneira clara, para pessoas de todos os níveis culturais.

Reforço que o ponto aqui não é se concordo ou não com a mensagem transmitida por cada um desses exemplos que citei. O meu destaque é para o fato de que esse pessoal sabe comunicar!

Fiz toda essa introdução para dizer que observo com muita preocupação um movimento exatamente oposto na esfera profissional – no dia-a-dia do nosso trabalho:

  • Engenheiros falando engenheirês – idioma baseado em fórmulas e postulados matemáticos;
  • Advogados falando advoguês – idioma baseado em dicionários de citações jurídicas e com forte influência do latim;
  • Profissionais da saúde, falando saudês – idioma farto em vocabulário científico (que me trazem doces recordações das aulas do Professor Serjão, do saudoso Olavo Bilac em São José dos Campos);
  • Profissionais de Marketing, falando  mercadês – idioma recheado de expressões idiomáticas criativas e muitas siglas;
  • Profissionais de Tecnologia da Informação, falando um idioma cujo nome não se sabe, mas certamente é um nome em Inglês;
  • E por aí vai…

Quando encaramos uma reunião multidisciplinar, enchemos uma sala com representantes de todas essas tribos (e eu reconheço que faço parte de uma), cada uma defendendo seus interesses, nos seus respectivos idiomas e dialetos. Quem já participou de momentos como estes sabe do sofrimento que é encarar esse momento “Torre de Babel”. Assusta-me ainda mais quando percebo que tem gente que acha isso natural, inevitável… e necessário.

Depois de muito apanhar (e bater também, admito), faço uma concentração e um esforço especial antes de qualquer interação com alguém – seja ele da minha área ou não. O meu desejo é que meu interlocutor receba com clareza a minha mensagem, e vice-versa. E precisa de esforço, sim, porque não está em minha natureza.

Aguardo você para nosso próximo encontro (ao vivo, por telefone, por email, por chat etc.), quando poderemos exercitar nosso poder de comunicação e de tradução de nossos cacoetes tribais.

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