Candidato à Presidência da República em 1994, Fernando Henrique Cardoso carregava a fama de intelectual esnobe e enfrentava rejeição por parte do eleitorado. Intelectual com vários títulos acadêmicos, dono de um vocabulário mais vasto do que a maioria da população brasileira, era normal que as pessoas encarassem suas frases e discursos como peças de difícil assimilação. Sabedor disso, em campanha pelo Nordeste do país, deu uma guinada na imagem de professor engomadinho: em Delmiro Gouveia (AL), vestiu um chapéu de couro e montou em um jegue; em Petrolina (PE), encarou um prato de buchada de bode e, no melhor estilo popular, “lambeu os beiços”. Daquele momento em diante, as coisas mudaram e ele conquistou seus dois mandatos de Presidente.
Recentemente, a Presidenta da Argentina, Cristina Kirchner fez uma declaração que alguns consideraram muito infeliz, dizendo que “é mais gratificante comer um porquinho do que tomar Viagra”. Ao contrário do que se podia esperar, o povo passou a se identificar de maneira muito mais intensa com ela. Desde então, a hermana passou a rechear seus discursos e declarações com referências mais próximas do cotidiano popular.
Não podemos nos esquecer do Presidente Lula, um dos grandes expoentes da comunicação popular deste início de Século XXI. Não importa muito se você e eu concordamos com as opiniões dele; o fato é que, com suas analogias futebolísticas (comprovadamente, o esporte mais popular do planeta), ele tem sido muito claro no que diz pelo mundo.
Nos meios de comunicação, é impressionante o poder de comunicação de pessoas como Sílvio Santos e R.R. Soares (com este último, convivo diariamente e sou testemunha do talento inegável). Transmitem de maneira clara, para pessoas de todos os níveis culturais.
Reforço que o ponto aqui não é se concordo ou não com a mensagem transmitida por cada um desses exemplos que citei. O meu destaque é para o fato de que esse pessoal sabe comunicar!
Fiz toda essa introdução para dizer que observo com muita preocupação um movimento exatamente oposto na esfera profissional – no dia-a-dia do nosso trabalho:
- Engenheiros falando engenheirês – idioma baseado em fórmulas e postulados matemáticos;
- Advogados falando advoguês – idioma baseado em dicionários de citações jurídicas e com forte influência do latim;
- Profissionais da saúde, falando saudês – idioma farto em vocabulário científico (que me trazem doces recordações das aulas do Professor Serjão, do saudoso Olavo Bilac em São José dos Campos);
- Profissionais de Marketing, falando mercadês – idioma recheado de expressões idiomáticas criativas e muitas siglas;
- Profissionais de Tecnologia da Informação, falando um idioma cujo nome não se sabe, mas certamente é um nome em Inglês;
- E por aí vai…
Quando encaramos uma reunião multidisciplinar, enchemos uma sala com representantes de todas essas tribos (e eu reconheço que faço parte de uma), cada uma defendendo seus interesses, nos seus respectivos idiomas e dialetos. Quem já participou de momentos como estes sabe do sofrimento que é encarar esse momento “Torre de Babel”. Assusta-me ainda mais quando percebo que tem gente que acha isso natural, inevitável… e necessário.
Depois de muito apanhar (e bater também, admito), faço uma concentração e um esforço especial antes de qualquer interação com alguém – seja ele da minha área ou não. O meu desejo é que meu interlocutor receba com clareza a minha mensagem, e vice-versa. E precisa de esforço, sim, porque não está em minha natureza.
Aguardo você para nosso próximo encontro (ao vivo, por telefone, por email, por chat etc.), quando poderemos exercitar nosso poder de comunicação e de tradução de nossos cacoetes tribais.
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